27 de abril de 2013

O HOMEM (É UM) CUBO


A concepção do Homem sobre a sua constituição esotérica e iniciática está cifrada em um mistério de dimensões atemporais. Assim, jaz na própria Eternidade a fagulha incendiária duma consciência protoimaginária, quiçá responsável pela aparição, pela descoberta de si e, sobretudo, pela forma que o ser das contradições assume na realidade;  muito mais do que uma grande ilusão de ótica do que uma constatação real e de significação modelar, que possa transformá-lo em uma entidade suprema; e, portanto, primo na cena do Universo. Neste sentido, não é despretensioso afirmar que há um abismo colossal entre aquilo que deveria ser e aquilo que efetivamente é na complexa geometria da vida. Logo, um corpo diante do espelho não duplica outra identidade, mas, antes, uma imagem. Uma imagem que nada tem a ver com o corpo que a originou, mas apenas um reflexo. No entanto, a imagem jamais será um corpo, pois, para além do reflexo, ambas as categorias habitam espaços distintos e impenetráveis. O corpo jamais poderá adentrar a realidade especular; e a imagem, por sua vez, jamais será um corpo. As verdades são coexistentes e paralelas. Desse modo, o desejo de ser além de si mesmo é algo que causa turbulência no Homem ao compreender-se como ser nomeado pelo espaço marcado pelos limites e pelas margens acidentais. Decorre daí a impossibilidade de o corpo ser a imagem e/ou a imagem ser o corpo. Onde há corpos, as imagens são meras ilusões duma realidade, que ninguém sabe exatamente o que é; onde há imagens, os corpos são refrações imperfeitas, que não significam absolutamente nada; mas, antes, sugerem, na linha do possível, aquilo que pode ser e o que pode não ser.



Uma das tarjas que estigmatiza o Homem em sua caminhada mística é, sem sombra de dúvidas, o dualismo. Este dualismo é a fenda aberta, que divisa todos e tudo aquilo que se sustenta na realidade circundante em aberturas e fechamentos incontroláveis, desconhecidos e necessários para a existência e a permanência da força sobrepujante do Real. Não há espaços de junção ou de religação. Qualquer tentativa, nesse sentido, é ato gerado por estados constantes de hipocrisia; de falseamento da realidade externa, pois, o Homem, ao refutar-se a si, procede a outra espécie de esvaziamento. Uma ação calcada no vazio das ações desobjetivadas e que são destituídas do exercício pleno do autoconhecimento: tarefa que as consciências, libertas das amarras terrenas, deveriam realizar para que a legítima dessubjetivação acontecesse para elevar o Outro a patamares sempre altaneiros e em progressão contínua e perpétua. Eis, portanto, o princípio do Altruísmo: o vaso - kli - é preenchido; posteriormente, a peça é esvaziada para preencher outro kli, em uma rede infinita de vidas para que a Luz essencial atravesse os poros e ilumine, de forma contínua e inesgotável, outros infinitos klins no mundo das formas e de substâncias palpáveis e perecíveis. A luminosidade, elemento exógeno, por excelência, invade e plenifica o Kli para que este reflita a luminescência em outros vasos. O contrário dessa ação revela, para além da estagnação, o dualismo que põe em xeque a identidade do Homem, sua missão no mundo como desdobramento da Eternidade e sua capacidade para o exercício efetivo da descoberta de si: condição sine qua non para seu verdadeiro crescimento como fragmento deslocado de uma realidade suprema e ignota, à luz das ciências telúricas, e para libertação do corpo físico que o (con)trai em proporções minúsculas, dada sua natureza irrevogavelmente selvagem e muitas vezes indomável.



Se, por um lado, o dualismo, acima referido, cinde ontologicamente o ser humano em duas partes distintas, onde o seu estado originário, antes uno e aparentemente indivisível, é dividido violentamente, provocando os conflitos, as crises e os confrontos, que exuberantemente revelam a fragilidade do humanus humanum; por outro lado, este dualismo revela, na cisão, o paradoxo da existência. Qual seja: há um espaço torneado no interior limitado de cada um; há linhas sinuosas, herméticas e sem fim nos lados largos, retilíneos e perfeitos dentro de cada ser, que fora fissurado nos primórdios. Há, com efeito, uma esfera mais do que perfeita flutuando, orbitando, misteriosamente, no espaço cúbico de todos os homens e mulheres, que, um dia, nasceram, cresceram e morreram. Eis, portanto, a face globular do enigma: esferas suspensas só existem pela força dos cubos que as guardam. Cubos só sobrevivem em virtude das esferas, que, veladas, mantêm aqueles em estado vital. Uma relação simbiótica? Com efeito, não é a resposta.  A constatação do fenômeno ou a consciência dos seres sobre si e acerca das coisas, como são na realidade, é a prova cabal de que um fio maior de existência alinhava dimensões, que não são contrastantes em ambientes singulares, mas que se complementam através do dualismo, que, em última análise, impõe o duplo como régua; a régua como medida; a medida como equilíbrio; o equilíbrio como eco; o eco como princípio. O princípio inquestionável de todas as coisas, que pulsam e que vão além do sangue, em cadeias de códigos indecifráveis para a compreensão humana; i. é., a Vida, a fonte inesgotável,  presente em todos os universos existentes e aparentemente improváveis.



A natureza cúbica, que torna os humanos entidades singulares no audacioso plano da Criação, está determinada em sua equação poética e fundadora dos 4 elementos caóticos, que constituem o ser humano. A saber: a Água, o Fogo, a Terra e o Ar. Sem estes princípios, o Nada Absoluto não teria sofrido a indevassável metamorfose, que transformou a matéria amorfa em substância modelar,  com significantes e significados, espalhados na vastidão do Universo. Sem este princípio, a compreensão humana jamais teria existido e o Ser, gerado e nascido pelo sopro da divindade maior, não teria produzido a energia originária, que move os entes a portarem (trans)biologicamente a vida. Tudo isto nos limites cúbicos e perfeitos, que balizam o código que identifica a bestialidade e a inteligência, ambas presentes, dualisticamente, no Homem: personagem encravada no cenário perfeito da physis. Nem tampouco os pré-socráticos, na Grécia Antiga, poderiam dar à luz os seus ensaios filosóficos sobre a existência e os mistérios rotundos, que ultrapassam o sentido imanente das coisas, através de uma prática contínua do pensar a partir dos elementais que fundaram o visível, o invisível, o aparente e o não - aparente. No entanto, a força concêntrica e modular do cubo não está no encontro perfeito de suas retas em ângulos gêmeos e fantásticos, mas na circularidade de sua massa interna e invisível, que dá sentido a outra forma geométrica perfeita, e, que, em conjunção com aquele, promove o equilíbrio e religa o Homem às suas reminiscências como centelhas desprendidas de um fogo inconsumível, no tecido da própria Eternidade. A Parte e o Todo estão lado a lado, mas não se tocam. A despeito disto, portanto, impõe-se a questão fundamental: o cubo protege a esfera ou é a esfera que sustenta o cubo?



Para se descobrir como cubo é necessário descobrir-se como esfera. Para ser esfera é necessário ser cubo. A questão cúbica está no axioma esférico; a sentença esférica completa-se na ordem cúbica. Ainda que intangíveis, cubo e esfera interpenetram-se em uma dimensão flexível, plasmática e informe; dimensão à qual humano algum jamais tivera acesso. Lugar de flutuações cósmicas e amalgamado pelo Antigo dos Dias. Mas quem é o Antigo dos Dias? Seria o Antigo dos Dias uma essência humanizada antes de o Homem ser formado; antes de o Kli ter tomado forma ou ser moldado como vaso nas mãos do Oleiro? Há um vácuo e um espaço, aparentemente desprovidos de substância, que, no vazio que não é, no nada que se apresenta como categoria do estádio zero das ontologias possíveis, que uma força presentifica-se e marca o não - tangível como latejamento indeterminista do Inefável. Inefável que encerra o mistério num penumbrismo profundo e silencioso; Inefável que lança a equação do enigma - enigma que sustenta no ar a esfera que revitaliza o cubo e o cubo que retroalimenta a esfera, e que mantém o Indizível no trânsito das forças ocultas, resguardando o traço da entidade suprema, que está em todos os lugares, ubiquamente, e que não está em lugar algum - princípio do paradoxo e dos seus contrários, onde a esfera jamais poderá ou será recortada para se tornar um cubo, ou um cubo que jamais poderá ter suas retas encurvadas sobre si mesmo para se transformar em uma esfera. Princípio da imutabilidade do que é; que é do pertencimento do infinitivo de um tetragrama insondável e sem qualquer tradução na linguagem que define o Homem como um ser cúbico e portador de uma esfera essencial.



Cubos não formam esferas, mas dão sentido à sinuosidade que perfaz os pólos insondáveis, que há em cada entidade luminescente no universo. Esferas também não formam cubos, mas engendram o fio da existência, que não interrompe ciclos, mas renova-os, através de um processo contínuo e singular de transformação e renovação. O princípio do Tikun, como lei fundamental, arregimenta, no sinergismo do cubo e da esfera, em consonância exemplar, o fenômeno da energia em constante mutação. O princípio mutatis mutanti rege, portanto, todos os graus de vitalidade, que constituem e conferem a densidade da rede complexa, que é a Vida, estendendo-se das estruturas adimensionais dos nanocorpos, presentes no Real Absoluto, às dimensões gigantescas dos polimorfos, que sustentam a própria rede, na qual a vida multiforme repousa e reina soberana como energia essencial. A cadeia que não tem fim é a constatação inequívoca de que os espaços modulares descrevem a rota da perfeição. Assim, a consciência finita e limitada de cada ser, que, paradoxalmente, vislumbra em lapsos temporais o rastro do Infinito e o reflexo da Eternidade, através de uma memória parcialmente perdida ou localizada em registros fragmentados, percebe em si mesma o traço robusto da perfeição, que não está distante ou alhures de cada qual, mas, antes, está internalizado e, simultaneamente, interligado à ordem suprema, que não distingue gradações ou sistemas evolutivos da luz nos corpos suspensos, no vácuo dos espaços nomináveis e não - nomináveis.  A esfera, o avesso do cubo, deflagra geometricamente o perfectum, simbolizando no arquétipo da Humanidade a lacuna, o vazio, a falha que permite ao Homem o sentimento da busca da completude que não tem. O perfeito denuncia a natureza do imperfeito. O cubo, por sua vez, emoldura o estado de uma perfeição inaugural na qual a esfera é uma sombra distante de uma natureza em suspensão. No cubo, os limites; na retidão de suas linhas, a necessidade de evolução e o desejo de expansão para além de suas fronteiras.



A sorte, a fortuna, o fado e o destino - lados idênticos de uma realidade, que experiencia no ar o jogo mortal que envolve todos os seres - os vivos e os brutos - na teia da Vida. Na vida, um cubo, que jogado para o alto, decide os caminhos que devem ser seguidos por uns ou atalhados por outros. Na superfície do cubo, a realidade em mutação constante, cujo contraste com as linhas retas e aparentemente sólidas denuncia as esferas que tonificam e dão sentido ao mistério que há em cada um, promovendo a elevação espiritual; desfazendo em espaços, progressivamente em expansão, os limites que aprisionam fôlegos em corpos efêmeros; grilhões que se rompem, onde as formas, geometricamente perfeitas, se desconstroem para conceber outras realidades, outros mundos; energeticamente completos e ascéticos. Assim, cubo e esfera, diferençados entre si, mas complementares em suas essências fundamentais, permanecem inatingíveis e incompreensíveis à vista do humano demasiadamente humano. A realidade cúbica é irreal sem a força motriz, operante e transformadora da esfera. A realidade esférica inexiste sem a blindagem do cubo, que, ao proteger as curvas perfeitas da esfera, guarda o enigma imemorial de um tempo mais antigo  do que os próprios dias, mantendo, simultaneamente, na imensidão de um horizonte afiado em uma linha mais do que reta, a vértebra espiralada, que une cubo e esfera em um espaço ímpar: móvel  intáctil de uma linguagem, cujo sentido é vedado às hordas angelicais e proibido ao acesso do Homem. O vaso - kli - é instrumento irrevogável para a recepção e posterior transbordamento da Luz; da sua aparição, provinda das mais altas esferas, aos poros unicelulares dos corpos vazados. Os klins, em cadeias infinitas, flexionando o plural na própria singularidade, transformam a luz do espaço superior em energia pura, densa e não - quantificável na dimensão inferior. Cubos e esferas conjugam-se harmonicamente para consagrar nas realidades multidimensionais a universalidade, a imanência, a transcendência e a permanência no Infinito da equação misteriosa, que faz do cubo uma esfera perfeita e da esfera um cubo em movimento retilíneo e curvilíneo -, sintagmas grifados no código genético da espiritualidade, que une os elos descendentes e ascendentes em cadeia insofismável.  A par disto, emergem duas questões fundamentais: por que um dado, algo tão singelo e singular, só tem sentido se for retirado de seu estado inercial? Um dado, jogado para o alto, não se transforma em uma esfera quadrática? Ao tombar na tábua plana, o que sobressai aos olhos inteligíveis não é a face laminar de um dos lados iguais, mas a esfera numérica, que decide o destino do jogador. O quadrado repousa, mas a esfera gira. No giro da roda, a rota do destino - veredas barrocas, mapas do livre arbítrio. Na dimensão do cubo, a face enigmática da perfeição, que se desvela pela emergência dos números - senhas perfeitas, que permitem escoar nos limites humanos a própria infinitude; cenas caóticas, cósmicas e, sobretudo, divinais, contempladas todas pela consciência klítica - candeia viva que jamais se apaga. Imperfeitamente perfeito, o Homem é um cubo.

22 de outubro de 2011

A FACE DO ABISMO




A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do Abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Gênesis 1:2. 
                 

Um dos maiores axiomas em torno do evento da pré-criação e da criação do mundo, segundo a sentença declarada no gênesis bíblico, está na narrativa sintética, como está apresentada, e, desse modo, blindada, acerca dos possíveis choques de forças que antecederam o nascimento do espaço, do tempo, e, em último estágio, de todas as estruturas que manifestaram o complexo da Vida, desde o esplendor inenarrável da grande aurora, que plasmou o sobrenatural e o natural em tomos indivisíveis - a concepção fundadora do átomo universal congeminando no útero primevo o sêmen e o embrião do Inefável; das formas mais simples às mais complexas. O intricado jogo na qual o fôlego teogônico reverberou, na malha infinita que atravessa as fronteiras sem fim do Universo, ou de suas formas, que se multiplicam continuamente em hologramas pulsantes, e que testemunhou, informe, as cenas primas que fraturaram as leis fundamentais da essência no devir avassalador de / em sua transubstanciação.  




O Deus que é - O Grande Eu Sou -, na permanência cíclica e eterna do seu próprio Ser, sofreu, para assombro da compreensão humana, a turbulência de sua energia inquantificável; seu Caos em puro estado de estremecimento modular, ao proclamar, sob o espargir de sua natureza soberana, a sua vontade única, colossal e eterna. Na ruidosa cadeia de sons inaudíveis e furiosos, antes da trajetória inevitável da Luz, a aparição, na matéria escura, da entidade soporífera, que se espalhou estrategicamente por todas as ordens, esferas e hierarquias etéreas, e que se estabeleceram na unidade cósmica, desprovida do Tempo, mas que perderia, no acidente monumental, que fora a batalha das hostes angélicas, a integridade excêntrica do Fogo, o elemento que forjou o surgimento de todas as densidades presentes nos mundos; na imensidão sideral que o Homem ainda desconhece.



A fissura provocada no duto espaço - tempo, na condensação do vácuo, e, por conseguinte, suspenso na eternidade, fora a desmedida na proto-formação da Criação, e que separou ad eternum a realidade da não - realidade; a substância da não - substância: o tempo do não - tempo; o espaço do não - espaço; o vivente do não - vivente; o finito do não - finito; e o mortal do não - mortal.  Os diversos e incontáveis hiatos, que determinam o estilhaçamento e a fragmentação da massa primordial, que era una e indivisível para se tornar múltipla e avariada, conferem o tom da decadência por que passa o processo de criação, que emerge do Nada, tendenciosamente à inclinação de si, de forma monumental. À sombra do Altíssimo, outras sombras conspiraram contra o mapa do Criador, que vislumbrou, na ruptura dos elos da eternidade, o nascimento do Tempo: voraz, traiçoeiro, faminto e cego, pois todos são devorados impiedosamente por sua orfandade, por sua natureza hedionda, que transcorporifica, de forma fantasmagórica, o abandono, o desamparo e a solidão infinita: faces dantescas de outros abismos; o Caos vertiginando-se em / sobre seu próprio ventre como o vórtex sem fim, onde o estômago do Universo digere tudo, ciclicamente. 




As primeiras páginas da Criação, neste sentido, não espelharam o sonho de Deus. Ao contrário: os eventos que antecederam aquela, no decurso de seu acontecimento, revelaram a paisagem terrífica, que se desenhou nas cimeiras camadas da espiritualidade. As substâncias primevas, singulares e únicas, por excelência, experienciaram a separação que se precipitou sobre si mesma, dando origem ao tenebroso Abismo.  Neste sentido, e, em primeira dimensão,  o Abismo era a consistência de uma entidade incorpórea, sem limites e ubíqua, plasmando, transformando e eclodindo as forças emergentes do Caos, em escalas multidimensionais e no rastro do infinito. Em segunda dimensão, o Abismo transmigra das esferas etéreas para se densificar na espiral hedionda, personificando remotamente a garganta de Deus, que tudo engolfa, que tudo engole, que tudo expele; destruindo paraísos e construindo infernos. Os sons desaparecem diante do fenômeno que revela a sobrepujança do Criador, ao dominar as esferas do Vazio, em seu absolutismo triangulado, cúbico e esférico; e a luz e o silêncio se confundem na enigmática equação que determina a essência da deidade: sinais do Caos, que distorce nos confins do que não é e do que não está, ainda, a imagem que ecoa para dentro de si mesma. O monólogo se transforma em diálogo e o ovo cósmico se biparte na grande passagem da espiral.





Uma questão emerge no turno da dimensão atemporal:
  • Se o Abismo fora a expressão do inominável, que já era sem nunca ter sido, planando no vazio absoluto, a quem pertencia a sua face? 
Na indagação, uma fenda proposital é inferida. A alusão ao pronome interrogativo quem implica o determinismo de um ser organizado, portador de uma inteligência complexa e co-protagonista na cena da proto-criação dos mundos infinitos. Estabelece-se, a partir dessa premissa, a grande cisão, que imperou no trânsito que aparta a não - criação da pré - criação. À referida assertiva, portanto, segue-se a reflexão metafísica - especulativa: instrumental metodológico da Cabala, e que, em consonância com o texto bíblico e com a ciência hermenêutica, fornece a matéria basilar para o desvelamento de uma verdade incrustrada na narrativa sobre o início dos tempos, no qual a Criação se confunde de forma colossal e espetacular com a não - criação; o não - ser não fecunda o ser, antes, as duas faces, aparentemente antagônicas, compõem o arco da aliança, que suporta as forças emergentes do Caos, em estados congeminados, porém distintos entre si.





Na transitividade postulada entre a não - criação e a pré - criação, um espaço adimensional, quiçá mais denso, mais profundo e mais temível do que os próprios termos do Universo. Esse tópos da não - dimensão tivera sido, indubitavelmente, o outro vazio sobre o qual não há e jamais haverá descrições plausíveis, objetivas ou passíveis de serem alcançadas pela torpe, diminuta e finita compreensão humana; será, pela via especular, uma mera representação da imaginação imprecisa do Homem sobre o lugar e os eventos acontecidos no vácuo eterno.  É, de forma terrífica, o estádio agudo e mortal do silêncio do qual duas entidades nucleares protagonizaram o fluxo caótico, informe, sem cor e sem luz: DEUS, a substância criadora, e LÚCIFER, o extrato criacional. Duas faces antagônicas e complementares entre si, dois extremos vertidos de fonte singular; expressões bipolares e multifacetas de uma entidade, e o equilíbrio das forças, que, no embate cosmológico, gerou o tensionamento da matéria densa, concêntrica, e inibidora da luz primordial.




O fenômeno que considerou o aparente desvio da Luz ou o seu velamento em suspensão, no espaço fixo do tempo do não - tempo fora, com efeito, um fato único e necessário para que, diante da desordem estabelecida antes do nascimento do Tempo, as duas forças contrastantes duelassem e definissem, para além das zonas temporais e atemporais, o destino inevitável do Nada Absoluto em processo de desfazimento para se organizar em escalas não - cognoscíveis pelas infinitas assembleias angelicais; elos da cadeia luminescente e  pilares que sustentaram na Eternidade a grande e inacessível morada de Deus, em sua forma criadora - o Ser amorfo, latente, tremendo e absolutamente inefável. O Abismo sempre tivera uma face: substância cravejada por elmos da inveja e armada com lanças do mais nefasto dos sentimentos: a Cobiça. A Luz, em sua ebulição esmagadora, forjando raios lancinantes, consumidores e coléricos, jamais tivera uma face. Assim, outra indagação se impõe, portanto, para o entendimento sobre o fatídico evento, que gerou os primórdios; no hiato agudo e exterminador no qual a suprema inteligência e sua criatura prima se enfrentaram:
  • Se Lúcifer era a própria forma do Abismo em sua magnitude furiosa e rebelde, quem era Deus?




O Abismo, em sua morfologia essencial, dinâmica e imortal não cessa a sua atividade. Qual seja: a reversão da Luz, que, em sua volta cíclica, é condensada e amalgamada com elementos incorpóreos; a fornalha que mantém as hostes rebeldes em prontidão eterna, aumentando a goela da espiral, que traga mundos, universos, astros, e varre, na imensidão das formas perfeitas, o complexo estrutural da vida, que, em última análise, é a representação real e virtual da Luz em estágios e gradações enigmáticas. O segredo da Luz e seu rastro, que rasga o infinito como flecha de fogo, lançada por um arqueiro incandescente caminha, silenciosa e em planos horizontais para nunca mais retornar ao seu ponto de partida. Na origem, a Luz fora a testemunha que contemplou, com sensores vitais, a batalha descomunal entre uma legião de anjos revoltosos, todos liderados pelo poderoso Lúcifer, contra a unidade magistral da criação: Jeová. Assim, sobre a Luz que emergiu do Caos para romper a distância do não tempo, e continuar, ininterruptamente, a sua trajetória no tempo, cumpre revelar que aquela, enquanto elemento imutável, carrega em seu feixe os restos atemporais de uma luta que não teve vencedores nem tampouco perdedores. Em stand by, as forças caóticas, antes conjugadas, ocuparam espaços contrários e vagas desditosas.





No vazio imensurável, a massa informe e desprovida de qualquer significação. Não havia a ascendência da vida: mote irrefutável, que denunciou a existência das trevas, e que pareceriam eternas  se  não  fosse  a  intervenção  fulcral  do Criador.  Não  obstante  o  cair  da  escuridão sobre o não - espaço, antes do advento dos primórdios, o Abismo, condensado e único, rondava imperiosamente, a esfera sem marcas tangíveis, mas que pulsava sua força orgânica, sísmica, ultrassônica e exponencial, promovendo um movimento, que emanava do centro em direção às margens, e alargando as fronteiras dos espaços sem limites. Não existiam, portanto, extremos. A cadeia avassaladora da Luz, em seu estado originário, bestial e desordenado, estremecia o próprio Abismo em sua extensão luminar, e que, em estágio final, se comportava como elemento motivador e dinâmico da contraluz. A contraluz não é a escuridão. Logo, a questão não estabelece postulados maniqueísticos, no turno da reflexão cabalística, acerca do enfrentamento, no Caos, entre Iavé e Samael. O Mal que o Homem não conhece não é o oposto do Bem. Este último, por sua vez, não é o avesso daquele. Ambos, Bem e Mal são partes essencias de uma realidade unívoca, uníssona e única. A voz, o som e o corpo, portanto, se dividiram em duas instâncias díspares, contraditórias e semelhantes.





Na fenda primeva na qual as forças se separam, Deus, se transubstanciando em espírito, se lança magistral e integralmente sobre a face das águas. E pairar sobre a face das águas significa invadir por cima o elemento fundamental para a existência de todos os seres viventes e que carregarão em seus pulmões o fôlego, o sopro do Criador - a Água; o sinal mais remoto dos tempos da Criação; a prova de que o Criador deu forma àquilo que flutuava sem corpo e sem forma nos vazios imponderáveis do Tempo que não havia sido gerado; do tempo que não havia emergido das densas trevas, que povoaram os ilimites dos mundos, quando o primeiro ser criado enfrentou o Pai nas esferas da densidade incorpórea. Na atemporalidade, a marca eterna da cisão, que dividiu a Luz em feixes vibratórios dessemelhantes. Assim, Deus, em sua infinita sabedoria, ao dominar o espaço aéreo, que estava sobre as águas, Aquele estabeleceu a tênue distância entre o mundo sobrenatural, a sua própria deidade, e o mundo natural, as águas, berço da vida, donde se originariam todos os seres vivos; e, por último, o Homem - a pedra angular de seu projeto apoteótico.




Estar sobre as águas é guardar, é proteger, é preservar algo ou alguma coisa como uma camada invisível e necessária para a manutenção do equilíbrio das forças da Criação; é, também, o registro inviolável  de que, após o Caos colérico, a ordem fora estabelecida, definitivamente. Todavia, para além do que o texto bíblico sugere, pairar sobre as águas revela a verdade que sela a divisão do mundo espiritual em duas realidades distintas. Qual seja: ao pairar, com seu espírito, sobre a face aquática, Deus permaneceu imóvel no ar; sustentou-se como sentinela; manteve a guarda e, finalmente, dominou o éter original. Estar sobre a face fluidica das águas, em sua totalidade, desvela outra imagem, talvez a mais bela de todas, desde que a desordem cedera lugar às hierarquias de luz, cujos limites começam no portentoso trono de Deus, onde espírito e luz constituem a substância da divindade e terminam na terra dos ancestrais adâmicos: a propiciação da vida em seu esplendor complexo, multiforme e plural. Deus paira e fecunda o mundo com sua vontade soberana e inquestionável. Entre o líquido e o espírito pairante, um espaço oco, que, na verdade, é o duto que liga o mundo sobrenatural ao mundo natural; é o elo fundador entre o Criador e a sua criação.




A posição de Deus diante da expansão das trevas e da emergência do Abismo, cuja face é a representação caótica da própria Luz, em reversão, que tende a sugar ferozmente tudo que pertence ao mundo das formas, é o índice notável de que a guerra mal começou; é o flagrante inconteste de que Deus, em estado de alerta, mantém a vida em seu decurso natural e impede que as sombras espessas transformem a matéria na antimatéria. A face, segundo a descrição nas Escrituras Sagradas, é das águas, pois Jeová é destituído de contornos faciais. O Abismo, por ser oriundo da substância da deidade, também não é dotado de face. Conclui-se, portanto, que o Abismo como Deus, incondicionalmente, é. Destarte, mais uma questão se impõe ante a dialética imposta pela verdade bíblica: 
  • Ora, se o Abismo e Deus são amorfos, por que o mundo natural é a representação da forma, através das águas faceadas, e o império das trevas aparece sob o risco de uma face enigmática e sem forma definida?
Não há máscaras no mundo informe, originário, onde a força criadora eclode sem limites na Eternidade. Onde a não - forma impera, a igualdade é a condicionante de todas as naturezas: a natural, a sobrenatural e a que está além da sobrenatural: placenta que gerou Deus, e que por sua vez, engendrou, a partir de sua ignescência eterna, a luz que brilha, às avessas, na face que, na atemporalidade, fora chamada no tempo do não - tempo de Abismo.





A batalha entre a Luz e o Abismo continuará até à consumação dos séculos. Entretanto, ultimando o enigma caótico, paira uma indagação no ar:
  • Se o Abismo tem uma face, aonde está a face de Deus?


4 de agosto de 2011

Ensaios de Cabala: o NADA que SOMOS e o TUDO que deveríamos SER.


- ATO I -  

No ventre alongado do universo, o Nada Absoluto. Sinônimo de Ausência. Vácuo eterno e vapores essenciais: paisagens remotas da Eternidade. O fluxo hiperbóreo espargia sobejamente sua energia antes do nascimento do Tempo, e o possível condensava o TUDO em seu devir devastador - tudo aquilo que não estava ainda; tudo que viria sob a luz e as cores do esplendor, em sua glória refulgente. Sobre o NADA, a sombra transparente do Caos devorando o que não existia: atos da germinação que, na garganta do grande Abismo, a saliva fecundou, através da palavra, a maravilhosa obra da Criação. Teofagicamente, a canção dos primórdios, de corpo ágrafo, entoou sua melodia inaudível. Ninguém era, ninguém estava. 

  • A Lei: verbos elípticos e sons eclipsados no silêncio dos magmas fundadores - espetáculo de Vida e Morte.

- ATO II -

O Nada nasceu e concebeu o TUDO. Presença soberba dos elementos inanimados e das formas multíplices de vidas: as primevas, as incompreensíveis, as simples, as complexas, as etéreas e as densas. O Eterno se desdobrou sobre ondas infinitas e esféricas, e, no dorso da parábola da Luz, kairós e Chronós se imbricaram na tangência neutra. No zero, o ovo cósmico; na cápsula atemporal, a partícula suprema da Criação - fabulações fantásticas do Princípio Absoluto, que mantêm a ordem e a desordem em quantificações ininteligíveis. Determinismo e indeterminismo antagonizam-se na gestação cruel da finitude desde os primórdios. Na partilha do ovo, a emergência do dual, as contrações sísmicas e a dor titânica.

  • A Lei: a dualidade excêntrica e o ser primordial bradam o eco na espiral do tempo. 

- ATO III - 

No grande e interminável rolo - o papirus ígneo, cósmico, brilhante e espiritual - o verbo essencial, em sua modulação espectral e fantasmagórica, descreveu a passagem dos sulcos infinitos para as vagas finitas. Nas marés siderais, geneticamente assimétrica e hiperfractal, a invisibilidade da energia formava universos, galáxias, estrelas, planetas, e todas as formas vivas e singulares que povoam as dimensões conhecidas e desconhecidas para a visão humana: frágil, limitada e torpe. Entre o Real e o não - Real, o assombroso vácuo, onde os enigmas fundamentais estão guardados sob o selo da pedra mais que angular. Termos, pontes finais, corpos abissais e a nefasta zona de penumbra em que o Abismo, imutável, reina soberano.

  • A Lei: a conexão entre o mundo superior e o mundo inferior transformando o verbo no cordão de prata, que mantém as dimensões singulares em permanente estado de equilíbrio. 

Os três atos, apresentados acima, poderiam ser o inenarrável evento que engendrou o drama da Criação, em seu apogeu e glória, e sua vértebra espiralada flutuando no espaço infinito. As mãos abraçadas da inteligência suprema, pairando espessa e silenciosamente sobre o NADA, ainda absoluto, desprenderam-se, uma da outra, e os dedos do Criador, que estavam cerrados entre si, afastaram-se, num ato único e monumental, para abrir a cortina do Inefável! O espetáculo da Vida, então se iniciara, e o DNA essencial, poeticamente trançado, sugeriu, para além da imaginação humana, a possibilidade de ter sido, desse modo, a gênese da qual todas as coisas e seres, que são partes integrantes e inalienáveis da energia, que dera origem a tudo que é sensível, e que sobrevive nas várias realidades - cognoscíveis e não cognoscíveis - a misteriosa equação, donde emanou, de forma colossal, o líquido, o sangue e o hálito; as substâncias que aqueceram elementos corpóreos e incorpóreos para comporem a paisagem harmônica da proto-esfera, na qual entes e coisas divagavam indefinidamente. O NADA, assim, deixara de ser absoluto, e o TUDO fremia, no espaço nascente e em expansão profícua, o som polifônico da relatividade: filigranas que teceram na invisibilidade o grande texto visível, e tornaram, desde sempre, o visível em invisível. Diante do paradoxo fenomenal, uma questão se impõe: um convite à loucura ou a crueldade de uma inteligência suprema em relação à própria criação?
Bumerangues apartados, o que fascina à Humanidade não é a revelação dos segredos que subjazem a criação de tudo que pulsa nas artérias do Cosmo crescente, segundo os físicos quânticos, nesta atualidade, mas a permanência inabalável da verdade e seu trajeto sem fim, diluindo existências e reduzindo a pó todas as realidades, que se apresentam como edifícios sólidos diante de olhos que sucumbirão, um dia, na grande avalanche do Armagedom. É pétreo asseverar, portanto, que a verdade é uma cartilagem gasosa e a face humana - um contorno distante, que fora perfeito, quando o tempo não existia - em nada se assemelha ao estilizado desenho de um rosto, também humano, eternizado sobre a fantasmagórica paisagem de Cidônia, em Marte. 
A construção e a desconstrução da verdade, como um bólido que navega e retorna ao ponto de partida, parece ser uma das lógicas de algo ou de alguém, ou, talvez, de ninguém, que estivera, está, e, por esta via, deverá estar sobre o infinito para segurar as grandes (e) (super)cordas que sustentam, no oco do universo, todos os corpos, inertes e em movimento constante; todas as ânimas translúcidas e sombrias, que viajam sobre as ondas magnéticas, sobre a luz, sobre os fótons, e, também, sobre as vibrações de energia criptografadas e atemporais. Iluminados ou não, nascidos nas sombras ou emergidos das trevas, que consomem tudo que é perceptível e que dispõe de massa, e não pertencem, desse modo, à natureza limitada e limitante do ser humano, os desejos primordiais são forças que coexistem desde o surgimento magistral da Luz, que clareou as esferas viventes, em gradações plurais e singulares, e que se perdem no adimensionalismo da própria expansão do princípio, em sua força absoluta que não cessa de Ser - força motriz, que não se esgota na matriz do próprio Universo. Princípio e precipício, neste sentido, se confundem nos ares que dominavam o espaço sem forma, e a massa informe, sob o fogo que forjou do barro o coração adâmico, e do forno as criaturas instintivas, era a substância plasmática, condensada e rica em nutrientes fundamentais: partículas geradas no esplendor da Criação. 
Dos desejos, ainda, cabe ressaltar que todos são frutos da cobiça, dos desvios e das primeiras linhas sinuosas, que traçaram os desígnios insofismáveis da imperfeição. Móveis cegos, sem direção; egoístas e destruidores em sua essência, pois são e estão presos à natureza que os transformou nos sentimentos da fundação do NADA, e, por conseguinte, do TUDO, que, estranhamente, padece por causa das dores originais, perdidas em tempos imemoriais. Impulsivamente, os desejos primevos são goelas gigantescas, que sugam para dentro de esôfagos infernais a matéria que dá sentido a tudo que está no planalto da Criação. Obra prima que, em sua constituição genética, vibra como teia de linho fino e resistente a se espalhar vertiginosamente, para cima, para baixo, e para todos os lados; plenificando espaços e não - espaços, promulgados pelo Princípio Absoluto. 
Portando a própria vida e encadeando os elos enigmáticos, que correspondem à identidade da inteligência suprema, o NADA e o TUDO se confrontam, em duelos épicos, nas ramificações que se desmembram a partir da Árvore da Vida. As sephirots e sua representação nos flancos dos mundos revelam a conexão infalível entre o Criador e a criatura, denunciando o maior paradoxo na / da Criação: a dependência da entidade suprema em relação à primícia de sua criação, e a independência irrestrita da criatura. Assim, a entidade suprema sonhou, no absolutismo do NADA, o desejo da (sua própria) perfeição, em um exercício marcado pelo duplo: a autoflexão e a auto-reflexão; e que, na proclamação de sua ordem, seu desejo se materializou no TUDO. No TUDO, cuja lei fundamental emergiu da liberdade incondicional da criatura, expressada pelo livre arbítrio, para deflagrar, em processos latentes, os choques das forças antagônicas dos primórdios. Princípio do desvio, da errância, que define a Criatura no risco de sua existência, pois o embate das energias primordiais, imbricadas e conflitantes, geraram a força motriz, e que, por sua vez, move todas as estruturas possíveis, existentes nos mundos e nos universos paralelos e não - paralelos. Desse modo, a dualidade, em confronto contínuo e permanente, provoca, no atrito dogmático, a tensão que está presente no TUDO antes de o NADA existir, de fato e de direito.
Enraizada desde o NADA, a Árvore da Vida, com sua estrutura fundadora, vibra em consonância com a luz, emitida do estado zero da Criação, e que, em gradações infinitas e constantes, modulam os feixes da tensão, que estão presentes nos corpos animados e inanimados: elementos nomináveis e inomináveis, que sempre transitaram e transitam nas esferas da matéria e da antimatéria. Este tensionamento é a prova cabal de que todas as naturezas, das mais simples às mais complexas, são marcadas pelo código fundador da dualidade em estado de autoflexionamento. Na dualidade, o equilíbrio, mas, também, na dualidade, o desequilíbrio. Há, na criação, portanto, uma fissura fundamental, que, ao longo de sua existência - do processo fenomenológico à formação de todas as entidades - provoca a inversão polar da essência: o TUDO se transforma no NADA e o NADA se transforma no TUDO.
Ao deixar o absolutismo fundador, o NADA eclode na imensidão da eternidade e o TUDO triunfa sobre a não - realidade. Sob o Real, o TUDO, migrando para espaços soberanos, transporta, na velocidade da luz primordial, a fagulha excelsa do Criador, o gene remoto do NADA, que, presente na atemporalidade, se constitui no Princípio Gerador de Todas as Coisas - lei prima e balizada pela imutabilidade de sua função, ação e execução. Assim, entre o NADA que não desapareceu e o TUDO que não completou a sua expansão, há, de forma indelével, o grande vão da suprema inteligência. Neste vácuo fundamental, a verdade cifrada das sephirots, que suporta os seres, as coisas, os mundos, os universos, as entidades e o princípio gerador.
Na terminalidade da Criação, a inteligência humana, atingida pelas forças antagônicas, capta a luz vibracional, recebe os códigos mutáveis e imutáveis dos planos superiores e livres das leis temporais, mas é refém da natureza primordial, onde o triunfo do TUDO não garante a pulverização do NADA. No primeiro momento, e não partícipe do NADA ABSOLUTO, a existência humana era, com efeito, o sonho do Criador, sob a forma de desejo primaz e enigma inquestionável. No segundo momento, quando o NADA ABSOLUTO fora engolfado pelo TUDO, o ser humano tivera registrado, em seu código vital, o nada relativizado e latente, em sua espiral genética. A tensão vibratória da Árvore da Vida, que está contida nos processos que mantêm a criatura no plano rarefeito do Cosmo, da perfeição à imperfeição, revela, em última análise, o imponderável: a imagem e a semelhança do Criador na representação teológica e ontoteológica, cuja palavra de fundação sofreu a corrosão inevitável da desconstrução, do desfazimento e da própria nadificação, que nasceu sombria para jamais deixar de morrer. O NADA é; o TUDO não é.
O Homem, vaso luminoso que deveria ser, reverte sua polaridade essencial. O centro da criação descobriu em si a sua teofania; todavia aquele eliminou, em sua estrutura interior, os ramos intangíveis da árvore vital da qual aquele é parte indissociável. Assim, ao renegar-se como partícula divina, o Homem abandona o processo regenerativo da autoflexão, e prova, no limiar das paixões egoístas, o Abismo, com toda sua volúpia, ardente e voraz, cujo vórtice tende a eliminar a natureza sublime da Criação para dar lugar à voz concêntrica de um eco, marcado pela inflexão e pelo distanciamento de suas respectivas natureza física e metafísica.
Em processo agudo de degeneração, o Homem parece, portanto, navegar em outro espaço; talvez uterino, ou, quem sabe, final, pois, um dia, na curvatura do tempo, o recolhimento ou o retraimento da própria essência se fará necessário para que a ordem se restabeleça, de dentro para fora, e não de fora para dentro, como supõem observadores incautos e míopes da realidade circundante. Contra o abismo nadificante, um vórtice às avessas, cuja força renovará as veias elementais da Árvore da Vida - as sephirots -, e a densidade será leve, dessubstanciada, e, finalmente, etérea.


- ATO FINAL -

A Árvore da Vida carece de expansão. Novos ventos, novos sopros devem ser gerados nos pulmões do Criador, pois o NADA preencheu as vagas da consciência humana e o TUDO é apenas a aparência da realidade no crivo agudo da depressão.

  • A Lei: o TUDO deverá SER para que o NADA SEJA o próprio TUDO.

 

10 de junho de 2011

Ensaios de Cabala - A razão de ser Kli


Na história da Humanidade são incontáveis as metáforas que são atribuídas ao ser humano bem como a sua representação no plano, que reconhece a existência daquele que se revela como entidade espiritual, planetária, e e em busca profícua do pleno sentido de ser, para além das classificações impostas pelos códigos filosóficos, religiosos e culturais, em análise primária.
As metáforas a que me refiro são pedras angulares para o enlevo de uma realidade, que descobre no mistério o sentido de algo que emerge a partir de um nada absoluto, e caminha, paradoxalmente, para outro nada, mais absoluto ainda. Esse percurso, esférico, retilíneo, sinuoso ou vertical, qualquer que seja o ponto referencial que se utilize para a compreensão da caminhada do Homem sobre esta terra não menos enigmática, também, tem como função primordial conduzir o próprio Homem ao seu estado máximo de reflexão sobre si, sobre sua relação com o próximo e sua relação especular, ainda que infindáveis questionamentos se percam em sua trajetória por falta completa de respostas. Esta é a cifra do mistério; e sob o silêncio agudo do inefável, existimos, somos, e, portanto, vislumbramos a possibilidade de termos uma identidade que nos defina nos vários universos que nos acolhem: do ecossistema interior de cada um à circunferência intangível do Cosmo, passando, pela ordem telúrica - cordão umbilical que nos prende à gaia sagrada, e que nos confere a única certeza nas impressões digitais que portamos; a de ser adamah - terra, pó -, e, em análise secundária, poeira estelar.
Destarte, não importa saber quem somos; não importa, por esta via (quiçá uma via de mão única) ter respostas significativas ou formulações exatas para o imediatismo que nos impele para o mundo exterior, provocando o nosso afastamento da pátria subjetiva que nos compõe, em tons harmônicos e de melodia pacificadora. Ao contrário, o que deve prevalecer, acima de todas as espirais, espalhadas no vácuo sideral, é a manutenção do processo que nos faz rememorar, quando, em tempos imemoriais, já formávamos um elo minúsculo na cadeia molecular denominada a partícula de Deus. Saber, com efeito, que somos uma fagulha inapagável e que nos religa à chama primeva. Mito, poética, figurações ou devaneios? Não, pois a voz que ressoa como diapasão em nossos ouvidos é, indubitavelmente, o nosso estado profundo de consciência que, a serviço da espiritualidade, conclama para sermos o que remotamente (já) éramos, e que o reencontro com a nossa verdadeira face especular é condição sine qua non para que sejamos, de fato e de direito, seres verdadeiramente humanos.
A narrativa milenar, que apregoa a verdade, quase inconteste, de que somos feitos do barro, e que na textura de seres argilosos, recebemos o fôlego que incendiou em nossos pulmões a Vida - ruach -, constitui-se no desenho fundador da raça humana quando o Criador materializou no mundo o seu desejo mais augusto, e, portanto, belo e perfeito: a criação de um ser à imagem e à semelhança de seus contornos e personalidade insondáveis. Bonecos feitos de terra que, misturados na água, tiveram seus corpos criados na expressão máxima do desejo do Criador; formas diferenciadas de outros seres que, segundo estórias do repertório que trata da criação do mundo, antecederam a nossa existência no mundo. Linhagem nascida da luz plena em estado de graça eterna: os Anjos.
A Luz, substância primeva, que formou do Nada a essência e a aparência, concomitantemente, atravessou todos os elementos criados e que repousam no espaço temporal e atemporal. A partir, portanto, da luminosidade, as cadeias infinitas, que formam a grande teia que é o universo, crescente e multidirecional, são receptáculos da própria luz, em estágios diversos, gradações multiformes e singulares que se presentificam em todas as manifestações conhecidas e não - conhecidas da Vida. Espetáculo divinal que não revela a mensagem teogônica, mas mantêm a fluidez, a permanência, e, sobretudo, o movimento contínuo e inesgotável, que é a presença do Criador no rastro de sua eternidade.
Nas mãos de Deus, mais do que seres que emergiram do barro disforme para alcançar a anima, somos vasos na mão do Oleiro. Vaso de barro. Vaso sem forma e vazio. Vaso sem vida. Coisa inanimada. Nada. Nada absoluto. Este é o princípio absoluto do Kli em sua poiesis fundadora. Imersos no suspenso do infinito como âncora sem cordas, somos porosos. Por milhões de "janelas abertas" em nossos corpos de barro, pois somos vasos em pleno vácuo, a Luz atravessa, e os vazios, pouco a pouco são preenchidos. Antes da Luz, as Trevas densas e aparentemente eternas. Depois do brilho fulgurante da luminosidade que vem da fonte do Criador, somos vasos que se plenificam com a presença do Altíssimo - relação de amor bilateral em que o pai se regozija com a felicidade do filho, e este último através da união com aquele.
Uma vez que somos vasos, plenos da luz divina, nossa consciência espiritual é despertada, e, desse modo, nos saciamos com o gozo arrebatador, que vem do Alto, e que nos torna seres ligados àquele que nos criou, por um lado. Entretanto, experienciamos a liberdade, o arbítrio - atributo da deidade e que nos confere a vontade própria, o desejo, o sentido renovador do prazer. Cenário inconfundível do diálogo entre o homem de barro e seu criador; palavra tornada concerto entre o Homem e Deus; relação cambiante de amor entre o Criador e a Criatura. O primeiro sente-se afortunado por propiciar ao segundo o prazer eterno, concedendo a satisfação plena e a felicidade. O segundo, volvendo a face para a Adoração, engrandece o primeiro, através do reconhecimento da Luz, sua recepção espontânea bem como sua função indelével na condição de elemento de completude de nossos corpos espirituais diante da face do Altíssimo.
A plenitude da Luz alcança seu apogeu como o sol que rasga o céu em todo seu esplendor, promovendo o fenômeno da vida e dissipando as trevas no abismo profundo dos oceanos universais. O vaso, nesse estágio crucial, um objeto vivo que, um dia, sentiu as agruras da escuridão, é relíquia resplandescente e portadora da luz que verte na fonte da Criação, sempre eterna, sempre necessária. A luz, nessa trajetória enigmática e sobrenatural, refém de nossos limites, pois somos vasos perfeitos, pertence aos nossos corpos de barro, às nossas fronteiras porosas. Iluminados e suspensos no Éter, realizados e em estado de perfeição, graças ao Criador, uma vez regozijados com a luz primordial, desejamos transbordar; ir além dos limites da luz, vazar para atingirmos patamares elevados da espiritualidade, em processo constante de evolução. A Luz, outrora nossa companheira única e fonte que nos alimentou por muito tempo, derrama e preenche prazerosamente outro vaso. Este vaso preencherá outro, que preencherá outro e os elos vivos se formam ad infinitum, e a luz preencherá no vazio suspenso todos os vasos que existirem.
O princípio do Altruísmo é deixar transbordar a Luz que nos preenche e nos plenifica como vasos que somos; do barro que nos formou e da anima que nos tornou entidades vivas e pontos de luz do Criador, brilhando mais do que as estrelas nas realidades existentes para iluminar outros vasos. A semente do Criador germinou em nosso ventre telúrico que, na escuridão, floresceu, embora não percebêssemos que até nas trevas a imperceptível luz gera a vida. Sentimos, na tessitura da argila, quão maravilhoso é ser dadivoso, pois o ato de dar se sobrepõe ao ato de receber, pois ser Kli é ter a consciência de que só é legítimo o prazer da alma quando o Outro é alcançado pela prática altruística do bem, da compaixão, e, em última análise, do amor incondicional.
Ser Kli é experienciar no vazio suspenso a semelhança que nos aproxima do Criador; transportar a Luz para outros vasos é esvaziar o nosso ser, os nossos desejos que, no ato de renúncia constante, alonga nossos corpos espirituais; preencher outros vasos é desaparecer na luz cósmica para ascender à condição de energia eterna e vital - sopro que um dia saiu dos lábios de Deus.

31 de março de 2011

JANTAR



Sobre a mesa,
uma toalha dum tecido roto;
era minha pele rasgada e ressequida por anos padrastos.
Sobre a mesa,
um prato.
No prato,
os meus intestinos.
Cozidos e mal passados.
Comi o que estava dentro deles!
Na taça imperial,
meu sangue;
marca tinta de que um dia fui imortal!
A faca, um punhado de dentes;
A colher, uma ossada oca e indigente;
marca d’água de um tempo em que homens devoravam crianças
e mulheres ardiam em fogueiras santas!
Garfei-me!

17 de outubro de 2010


O PRIMADO DA FILOSOFIA

Os gregos, na Antigüidade Clássica, repugnavam a possibilidade de serem chamados de sábios, pois defendiam a tese de que a sabedoria era um estádio a ser atingido como um processo contínuo de pensamento sobre a própria Vida. Neste sentido, importa clarificar o sentido da palavra sabedoria. Filós, amigo, sofia, saber. Amigo do saber: assim proclamavam os antigos pensadores, pois conseguiam, através dessa expressão, transmitir a idéia de construção do próprio saber enquanto universo que se expande, permanentemente, para todos os lados, em movimento esférico, ou na forma aspiralada do pensamento, desde a sua fundação, modulando a representação do infinito.
Na gênese do pensamento helênico, os pré-socráticos dominaram a cena filosófica, quando atestavam a verdade a partir da observação da realidade com seus respectivos processos fenomenológicos. Os fenômenos naturais e seus elementos fundadores – água, terra, fogo e ar – compunham o modo de pensar dos gregos, que apregoavam o conceito de que o Homem era essencialmente natural, e, portanto, o exercício do pensar adviria da compreensão do Homem enquanto natureza suprema, impondo, em última análise, o código Natureza Naturante. Daí, a filosofia clássica abordar tal questão sob o prisma da physis (natureza).
Postulava-se, a par do código Natura, uma oposição fundamental com o ser que constrói a História; i. e., a personagem que atua na cena da Cultura. O problema revelado neste equacionamento de contraditos está no fato de que os pré-socráticos admitiam que a veracidade do ato de pensar e sua legitimidade, enquanto processo terminal, estariam ligados, ambos, à proximidade ou não do Homem em relação a sua natureza como ser natural; o ser da physis.
Desse modo, o mundo cultural, representação concreta da razão, limitaria o agir e o pensar do Homem em detrimento de uma sociedade que preconizava a parte e não o todo – princípio fundador da Metafísica.
A tradição filosófica ocidental ancora sua verdade a partir do pensamento socrático e platônico, inicialmente; e continua, de forma exemplar, com Aristóteles. Todas as questões concernentes à Arte, à Política, à Economia, à Ética e à História estão fundamentadas no pensamento aristotélico até os tempos hodiernos.
A conjugação do pensamento helênico com o pensamento românico, inaugurando, na cena da história ocidental, a tradição greco – romana, vislumbra, com Plotino, um apelo à causa da razão como forma de afirmação de um império, no apogeu de sua existência – Roma –, para ratificar, por conseguinte, o Homem como o centro de todas as coisas existentes no universo, ainda que, posteriormente, houvesse um retrocesso, quando a Humanidade fora soçobrada pela idade das trevas, introduzindo, assim, no teor filosófico, o componente religioso como desconstrução de uma tradição ilibada do pensamento ocidental. Nesta direção, ressaltam-se os pensamentos de São Tomás de Aquino e de Santo Agostinho, cujas contribuições foram salutares para trazer à lume a questão teocêntrica como forma libertária do ser do Homem, na esfera do universal, sem, entretanto, contrapor os valores balizados pela Igreja Católica Apostólica Romana, que, à época, constituíra-se como móvel protagonista do poder político; além dos dogmas insofismáveis daquela que jamais deveriam ser questionados por qualquer mortal.
Mais tarde, Descartes, com a máxima filosófica Cogito Ergo Sum, ( Penso logo existo ) introduz, na tarefa do pensar, a noção de causa e efeito, determinando, desse modo, a existência como conseqüência imediata do ato de pensar. O pensamento cartesiano, marco para um homem voltado à prática da ratio (razão), determina o soerguimento do pensamento científico em todas as áreas, e expulsa, paulatinamente, o domínio da religião como verdade absoluta, essencial, para além dos muros de uma equação antropocêntrica, que, por sua vez, corrige o traçado do Homem, entronizando o ser do cogito na cena nuclear da História. Outrossim, o pensamento cartesiano questiona a postulação clássica de Parmênides, que afirma que o pensamento e o ser, em verdade, se confundem na essência, formando um módulo indissociável. Não há, para Parmênides, a compreensão do Ser sem a prática efetiva do pensar, e, portanto, o seu reverso.
Hegel, outro divisor de águas na Filosofia, determina a passagem do Homem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea, ao defender o modelo triádico do pensamento humano, e, por esse turno, afirmar que o Homem é o ser contraditório, por excelência. Assim, para Hegel, em um estágio primário, o Homem afirma a verdade – TESE -, em um estágio secundário, o mesmo Homem nega a verdade estabelecida – ANTÍTESE – e, em um estágio terciário, o Homem supera a própria verdade – SÍNTESE. Tal postulação, em última análise, revisou o conceito da própria dialética, em cujo turno é deslindada uma terceira realidade, que emerge não para negar aquela, mas para favorecer o estabelecimento de outras realidades, nas quais as perguntas formuladas não têm respostas; e a contínua indagação promove o princípio constante da busca, através das possibilidades infinitas de proposições acerca do Real.
Nietzsche, um dos grandes filósofos do século XIX, afirma, em seu pensamento, que o Homem é um ser simbólico e a sua linguagem expressa verdades recônditas e impossíveis de serem desveladas por um processo lingüístico. O símbolo e o ícone são a representação arquetípica e essencial daquilo que o filósofo considera como humano, e, desse modo, cria o mito do super-homem, destituindo, da configuração existencial do próprio Homem, a permanência de quaisquer teses sobre a existência de um traço divinal. Para Nietzsche, Deus está morto e a religião impede o Homem de buscar a sua identidade primeva. Messias e líderes são eliminados do pensamento nietzscheano. Logo, o referido filósofo defende a tese do pensamento, cuja validade será plena, de forma totalizante, se o Homem conseguir, com efeito, libertar-se de quaisquer sistemas que possam limitar o exercício do pensar, e, neste direcionamento, assumir a face libertária, de fato e de direito no planeta.
Heidegger, na turbulência do século XX, com suas obras Sobre o Humanismo e o Ser e o Tempo, entre outros escritos filosóficos, retorna ao passado glorioso do pensamento helênico, e busca, na essencialidade da Linguagem, a forma mais radical para explicar o ser do homem. O Homem existe pela via da Linguagem e pela via da História. A conjugação de tais fatores eleva o pensamento heideggeriano para um patamar universal, que não dispensa as verdades que compõem o legado da Humanidade, mas, antes, são instrumentais para que o ser entre, definitivamente, em questão. A Linguagem é a Casa do Ser constitui-se, portanto, na máxima fundamental do filósofo supracitado. A compreensão do ser é possível apenas pelo estatuto da Linguagem, e o ser é um processo fenomenológico que se dá sendo, fundando o traçado da errância e da eterna busca pela completude da existência humana.
   

15 de outubro de 2010

VINHO



Desce,
desce goela abaixo,
rascante:
palavra que rasga a alma danada
presa ao corpo de Jó...


Desaparece,
desaparece feito sangue
no ralo de suicidas,
Tinto:
palavra que tinge meu corpo,
fratura exposta da cor de carmesim!


Repousa,
repousa como anjo em silêncio
em meu meu ventre traidor,
Suave:
palavra maldita
que embriagou mulheres
e enganou homens!


Alguém já viu o diabo beber?


De: João Carlos de Souza Ribeiro, da série Vinho.

6 de outubro de 2010

CAMINHOS E DESCAMINHOS DA INCLUSÃO DIGITAL


Protagonista em versão updated, de uma realidade que cinde com as estruturas de um fisicismo empírico, o homem ocidental, ao descortinar o milênio, em sua terceira edição, não fere a celulose com a ponta lancinante de uma esferográfica – ícone primo de uma era dita moderna. Sua assinatura, ao contrário, é, em tempos hodiernos, uma ilustre navegante de um espaço digitalizado, corporificando-se e modulando-se como representante inconteste do código mutatis mutanti na cena pós-cibernética.
Os tempos finimilenares de outrora impuseram a compilação de saberes e a multiplicação de espaços, cada vez maiores e assombrosos na realidade macrocósmica da Humanidade. Os tempos atuais impõem o minimalismo e a concentração máxima de informações em unidades dominadas pela nanotecnologia. O Homem, nesta diretriz, ao reescrever a própria história, torna-se refém de sua errância, preconizando o percurso mítico do eterno retorno, sob o império do digitalismo; e a linguagem, por seu turno, é recodificada. Desse modo, a realidade do homo digitalis parece ganhar novas senhas de acesso à verdade em um mundo informatizado. A aldeia global, em análise parcial, transformou-se em uma grande teia: larga e em expansão contínua.
É neste emaranhado de fios de fluxo contínuo e descontínuo, no qual os paradigmas são substituídos por uma rede marcada por um paralelismo crescente, que os atores da realidade, em dimensões refratárias, são coadjuvantes da wide screen de plasma ou das teclas alfa-numéricas dos milhares de aparelhos de telefone celular, que invadiram o mundo real, transformando-se em uma verdadeira peste! Obsessão ou uma praga similar à dos tempos bíblicos? Nanotecnologia, personal computer e LCD são variantes de um maquinarismo dominante na realidade contemporânea, onde os dígitos são paramentos de última geração para os oráculos de uma antiguidade longínqua e legendária. A despeito disso, indago: cenas de um filme de ficção científica ou o realinhamento da realidade objetiva, sob a dinastia do digitalismo e da leitora ótica, cuja assinatura barra no ocultismo do laser o verdadeiro nome? A meu ver, aparentam ser rastros de um enigma aparentemente indecifrável.
Em tempos nos quais o acesso, a utilização e a socialização da informação, paulatinamente, desfazem a máxima de que o poder está circunscrito para aqueles que detém aquela, a inclusão digital revoluciona as esferas do próprio poder, seja de que natureza for, seja de que origem for. O mundo digital viabiliza, através do processo de inserção da grande massa populacional e planetarizada, a transformação do Real em sua forma radicular, essencialmente plena. A questão ideológica, que emerge da operação, na qual a inclusão é a palavra de ordem, revela a realidade de um mundo onde o obscurantismo, o anonimato e as sombras têm lugares primos pari passu àqueles que fidalgamente se banham nas luzes de uma caverna platônica, em unidades mecatrônicas de última geração. Viagens alucinatórias de um surrealismo esgarçado?
Os caminhos da inclusão digital estão mais próximos, ainda, do ambiente onírico do que da realidade concreta. Entretanto, é notório ressaltar que o fenômeno da globalização, que reduziu as dimensões do perímetro terrestre, estabeleceu nos links a realidade instantânea dos portais, que são abertos e fechados na velocidade de um zoom eletrônico - condição basilar para que uma legião de identidades infinitas acesse à realidade virtual com um simples toque nos teclados padronizados dos computadores, ou diretamente nas telas de constituição plasmática.
Destarte, sob a égide de que a informação é de todos e para todos, a inclusão promove, grosso modo, a pulverização completa da realidade objetiva, inaugurando um tempo marcado pela polifonia e pela destruição de unidades polares. Os vetores referenciais são, por esta via, ubíquos e exercem suas forças para todos os lados. Não há modelos a serem seguidos; não há padrões estabelecidos; há, sim, no processo de inclusão digital, a descoberta de verdades subjetivas concorrentes e insofismáveis, abrigadas em sítios e hospedeiros congêneres, no universo já consagrado pela expressão on line.
Os descaminhos da inclusão digital trazem na desconstrução das identidades o esvaziamento das subjetividades, de forma avassaladora. Se, por um lado, a grande massa, que antes jazia no império das sombras, e que agora assedia outros espaços, à cata da verdade essencial, como se fosse um troféu olimpiano; por outro lado, o triunfo da informação desintegra o modus cogitanti do Homem que, refém de um digitalismo numérico, é transformado em códigos cada vez mais complexos.
Assim, os descaminhos da inclusão digital sugerem o pesadelo como passagem para uma realidade em reordenação monumental. A urgência dos fatos e a obsolescência das máquinas arremessam as gentes para a tela fria dos computadores, e uma nova cartografia nasce na realidade do mundo digital: o mundo fragmentado em ilhas reais e virtuais, por excelência; e o isolamento de sujeitos, que desconstroem o dialogismo com a alteridade.
Para além do acesso ao mundo digital; para além do acesso à verdade, em tomos informatizados, a construção de uma linguagem universal, pautada pela sistematização de cadeias lógicas, racionais, e, em última análise, práticas, a inclusão digital deixará de ser um projeto para, com efeito, tornar-se a realidade de um mundo transglobal, no qual as ilhas formarão um corpo harmônico, apátrida e singularmente único.
Por enquanto, a lei que rege a cultura de um sapiens, em processo de falência sistêmica, é a de que a inclusão implica exclusão ou o seu princípio reverso. O campo ainda é o da reflexão. Por fim, indago à Esfinge: será isto uma utopia?



5 de outubro de 2010

Réquiem para um poeta


Canta desgraçada,
que o teu canto é morto de nascença!
Canta porque a fome há de te devorar...
Canta, somente, canta
o teu canto agudo de morte!

Canto;
é lá onde estou
à míngua, sem canção!
Emudecido pela solidão salgada de homens hipócritas
e mulheres aleijadas...
No canto, o meu desencanto pela vida!

Lá se vai o verão,
e a mim me verão esticado
sob cobertores de gelo;
saudade abaixo de zero
que eternizará, em azul, meus olhos abertos...

Quem morreu?
Eu, Deus ou a cigarra?


João Carlos de Souza Ribeiro

25 de setembro de 2010


OS PÁSSAROS SÃO LIVRES PORQUE VOAM,
OS HOMENS SÃO LIVRES PORQUE AMAM. 
AMEMO-NOS UNS AOS OUTROS, 
POIS SEREMOS MAIS LIVRES DO QUE OS PÁSSAROS QUE VOAM, 
MAS  NÃO SABEM O QUE É AMAR...

João Carlos de Souza Ribeiro

23 de setembro de 2010

Canção do Girassol


Diante dos girassóis, o meu corpo curvado e sem luz!
Sobrevivente da melancolia e das horas agudas de solidão,
desfio no tempo a sorte que nunca tive;
de não ser amado e de sentir frio...


Desnuda a alma, tudo em mim é dor!
Quem poderá me agasalhar?
O vento que sopra distante me despetala todos os dias.
Sou caule sem seiva sob o luar que mingua a minha voz..


Em mim, a certeza dos espinhos às avessas;
uma vontade gigantesca de ser cactus no meio do oceano!
Qualquer coisa insana que estarrece os homens de boa vontade.


O poeta me descobriu entre as flores do jardim;
a casa abandonada, a pintura sem vida e um retrato amarelado;
como um girassol que adormeceu para sempre ao meio-dia...


João Carlos de Souza Ribeiro

A POÉTICA DO VERDE



“Singular, a floresta amazônica!
de alto porte e espessa, não tem força
para se agüentar em pé, sendo além
disto quebradiça como vidro.”
1



A constatação de uma literatura emergente, nos limites da Amazônia Legal, é ponto fundador para uma discussão de caráter teórico – crítico, cujos vetores epistemológicos obrigam, sobremodo, os pesquisadores e estudiosos, em geral, a revisarem os possíveis estatutos que determinam o refluxo investigativo de um canonismo decadente, a priori, e a conseqüente arrolagem dos textos considerados artísticos, no universo de topia ímpar, sob outras óticas, a posteriori.
A despeito da assertiva inaugural, de que a tradição canônica descamba para uma verticalização sem precedentes, na história da literatura brasileira, não insulta os portadores do saber consagrado sobre a literatura do século expirado nem tampouco a escrita empilhada pela historiografia literária, que rompe a aurora da centúria nascente. Ao contrário: a decadentia epocal é a variável determinante para o recrudescimento de quaisquer teorias e, por conseguinte, de posturas críticas, no que tange ao soerguimento de pensamentos modelares acerca das escrituras de tônus artístico, sejam polares ou extrapolares.
Todavia, a dinâmica promotora do exercício crítico não subtrai a carga necessária para a descoberta das letras que escoam entre as lacunas salutares da própria literatura, que se renova, constantemente, no Real, como o fogo prometéico roubado dos céus para divisar os rumos de uma humanidade, senão deificada, mas, quiçá, com um pendor à cientificidade. Argumento inconteste para a revisão da evolução da literatura nacional, desde a polêmica fomentada por José de Alencar, no turno do Romantismo, no século XIX, cuja turbulência ideológica parece ter se acalmado, após o frisson, que foi a promulgação da Semana de Arte Moderna, em 1922, como mastro separatista de uma literatura, ainda vista como espelhamento de um ser europeizado, em terras tropicais, e disforme, no início do século XX.
Se, por um lado, as vanguardas, completamente díspares, fecundavam o imaginário europeu, que, aparentemente, vivia o olimpismo secular, a maior colônia portuguesa d’além mar estava à mercê de ares novidadeiros, correspondentes às avalanches de ismos que choviam, (tempes)(fes)tivamente, sobre as mentes européias como presentes singulares dos deuses augustos. Asseveradamente, as vanguardas européias constituíram-se, à época, em um brain storm, que ensejou todas as rupturas marcadas pela rubrica denominada Modernismo. Contudo, a modernidade enclausurada no modernismo do Velho Continente não era mais uma primazia do povo europeu; acostumado, este último, de forma umbilical, a ser o centro do mundo. Olvidaram-se os colonizadores do Novo Mundo de que as colônias e as ex-colônias chegaram à maturidade artística em vários campos da Arte, propriamente dita.
Controvérsias à parte, sobre a trilhagem histórica, da qual o escape era impossível para que os escritores nacionais bebessem das fontes européias, a fim de renovarem o repertório no hemisfério meridional, o Modernismo, como movimento de redenção do ideário da brasilidade, imposta, esta última, pela letra diplomática de Alencar, e, posteriormente, redimensionada, através do refinamento vernacular, implementado por Machado de Assis, também fora estilhaçado pelo pulso gravitacional, que estonteou Mário e Oswald de Andrade. Ambos, de forma sorrateira, namoraram com um certo futurismo marinettiano e planaram como salvadores de uma pátria, ainda à cata de uma conceituação sobre uma possível identidade cultural, que abarcasse todas as diferenças e igualdades espalhadas em um país de metragem continental.
O grupo nordestino de escritores que, paradoxalmente, não dispunha de cartelas financeiras vultosas, como o timbre mercadológico dos paulistas, estes últimos, representantes de uma elite em ascensão no Brasil, fora ludibriado em nome da urgência proclamada pelos artistas do sudeste, para que, cem anos, após a independência política, fato semelhante eclodisse sob o lema A Semana de Arte Moderna de 1922, quando uma outra independência, oxalá a mais importante, elevasse a arte brasileira para um patamar ímpar, num mundo que, de longe, já se globalizava. No entanto, ao rever os anais da própria história da literatura brasileira, a primeira geração modernista, organizada pela crítica literária, para o assombro e o rancor da elite cultural dominante, fora estandardizada pelos nordestinos, sob o título honroso e justo de O Regionalismo. As obras conceituais e ideológicas do Modernismo, lançadas na abertura da antológica semana, classificadas como literaturas autobiográficas e / ou talvez memorialistas, nascentes, através dos romances Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, e Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, respectivamente, marcos reluzentes para um país que se curvava ao industrialismo da capital mais rica da nação, à época, São Paulo; e o romance antropológico Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, também de Mário de Andrade, dentre outros, revaloraram a letra artística nacional, mas não constituíram em impeditivos para a avalanche que estremeceu todas as gerações do modernismo brasileiro, a começar pela publicação portentosa de O Quinze, de Rachel de Queiroz, seguido por toda literatura proveniente da terra, que ditava a verdadeira identidade do ser brasileiro, em sua amplitude máxima: em plano primário, regional, e em plano secundário, universal. Uma outra historiografia refluía na contramão da história oficial, legitimada pelas mentes dominantes do sudeste brasileiro.
A tese, portanto, de que o Homo brasiliensis nascia de fontes marcadas por um sulismo original, por excelência, ruía, de forma imponderável, diante da verdade que sentenciava o ser complexo, habitante do maior país latino, abaixo da linha dos trópicos. A tentativa frustrada, para a eternização de um perfil, de descendência européia, sucumbira diante da conjugação simultânea de vetores diversos, e que apontavam, sobremaneira, para o nascimento, de fato e de direito, de um ser dotado de modos e linguagens próprias. A questão lingüística deportava, para além do Atlântico, os arautos da verdade gramatical, e introduzia, no saber próprio da língua brasileira, os fenômenos despadronizados, constatados na extensão territorial, que é o Brasil, e concorrendo, desse modo, para a construção de uma língua distante e destoante, no tempo e no espaço dos prosaicos lusitanos. De igual modo, a literatura, não mais uma sombra espectral do português e do francês, respectivamente, ditava novas regras, ao redefinir o traço de uma cultura emergente, cujos fundamentos enraizavam-se no nativismo do elemento indígena, mesclado com a efervescente e rica corrente africana.
Percebia-se, destarte, o verdadeiro sentido da pluralidade que, historicamente, caracterizaria a identidade cultural brasileira e sua respectiva letra artística. Por conseguinte, atestava-se a tendência multiforme na literatura pós-romântica, que, por seu turno, não dispunha de instrumentais adequados para a objetivação da tese sobre uma escrita de raízes múltiplas e seu ponto de fundação. Reconhecer que a paisagem exuberante, descoberta e idolatrada pelos colonizadores, e retratada, de forma ímpar, na histórica Carta de Pero Vaz de Caminha, prestaria um serviço, para além do ideário bucólico na literatura; travar um embate com os proprietários naturais da terra – os índios, confinados em sua cultura distinta e massacrados pelas mãos do dominador branco; compreender o entrelaçamento dos valores africanos com os elementos emergentes de uma nação sob os trópicos, para revalorar o novo, demarcando a linha do paradoxo, nos estudos da história e da historiografia literárias, constituíram-se em um esforço de dotação homérica, fadado ao declínio epistemológico, ao tempo da construção de um saber crítico acerca da Literatura Brasileira, em última análise. A tarefa elucidativa não lograria êxito, pois o tempo interpunha-se como lâmina afiada a sangrar qualquer letra crítica que se expusesse na tentativa de rescritura do Brasil, em tempo exíguo de nascimento. Aqueles que escreviam produziam crítica e pensavam o país, em cujo sinergismo a lente de observação e detecção das verdades buscadas estavam, na maioria das vezes, desfocada; e o caráter de singularidade de nossa literatura, que adveio de um pluralismo modelar, implodia sentenças várias e colocava a crítica literária em rota de colisão com os anais da própria História, fosse de ordem oficial ou o seu absoluto contradito.
Na trilhagem de uma literatura, que não atendia aos clamores de uma região do país, e tampouco poderia ter a assinatura de um grupo de intelectuais, de cuja herança o extrato era, indubitavelmente, o refinamento de um temário d’além mar, a reconfiguração do novo, que demarcava, na aurora da última centúria, o traço distintivo de uma cultura em eclosão, sob todos os aspectos, impunha outras vozes na grafia artística, e que, paulatina e simultaneamente, no corredor da História, obrigava os salteadores das verdades sobre os fundamentos de uma cultura literária, dita nacional, a devolverem os objetos originais aos seus lugares legítimos. A verdade retomava o seu lugar primordial, e o Brasil redescobria o Brasil na virada do século XIX para o século XX. Vale ressaltar, neste turno, que a teatralidade, propalada e levada a termo pelos modernistas, na antológica Semana de Arte Moderna, em 1922, desencadeou o efeito da ruptura, desejado por seus preconizadores, segundo a historiografia de base canônica. Entretanto, afundando o solo da singularidade do rompimento, que não atingiu a plenitude de sua ação, descobre-se apenas uma força abrandada, de ferimentos sem muita gravidade, entre a escrita literária européia, de matiz essencialmente branco, e a escrita emergente brasileira, de tônus notoriamente multicolor; e, ainda, à guisa de uma classificação convincente, ao olhar crítico da História, à problematização da própria Literatura, e, em análise ulterior, à reflexão da Poética, como estatuto alternativo de revisão do evento literário enquanto manifestação da Arte, em sua expressão ímpar.
O Modernismo, como movimento artístico, como corrente estético – literária, ou como período literário, cunhou, por um lado, a literatura de um país em profunda renovação, no que concernia aos temas emblemáticos para certificarem a maturidade de um povo; e protagonizou, por outro lado, de forma exemplar, o palco de transformações, ainda por serem recepcionadas e arroladas pela crítica histórica, pelas teorias sociais, em voga, à época, e pelos modelos emergentes da Crítica Literária, concentrados nas primeiras décadas do século nascente. Neste sentido, é inegável a importância do evento modernista, que se constituiu em portal distinto para um labirinto de entradas e saídas múltiplas da nova literatura brasileira, apartando-se, de vez (?) dos interlocutores europeus. Hesitações de toda sorte pairavam nos ares, nas escrituras díspares, e, sobretudo, nas mentes dos que prevaricavam, ao proclamarem, peremptoriamente, que eram os autênticos representantes da intelligentsia brasileira. Nesta diretriz, indaga-se: quem eram os sacerdotes desta verdade quase divinal? Se se comportassem como românticos, espécies extintas pelas teses cientificistas do Realismo, seriam acusados de tardios, anacrônicos, ou mesmo uma cópia mal feita dos ancestrais, que divisaram os estudos de cultura e de literatura nacionais, ambivalentemente. Se locupletassem verdades ensaiadas em laboratórios, poderiam quedar-se no equívoco das paixões inflamadas pelos tempos novidadeiros, e sentenciar verdades que, certamente, não se coadunariam com as escrituras artísticas que surgiam, à época.
À falha da ruptura, seguiu-se o desastre do acefalismo mórbido, que acometeu todos os pensadores do modernismo brasileiro – sentença irrefutável, ratificada e consagrada pela fenomenologia da própria arte literária, que se expandiu por todas as gerações ditas modernistas. Percebe-se, através do zoom angular do poeticismo, que a História da literatura experienciou o efeito chamado de contramodernismo2, pois, na errata de um criticismo, validado pela Hermenêutica, desvendava-se, de forma gradual, a verdade sobre a verdade do / no modernismo nacional. Qual seja: os atores da Semana de Arte Moderna eram modernistas, mas o cenário não passava de uma pseudoteatralização de uma paisagem rabiscada com aspiração ao moderno. Marinetti, Samotrácias vencidas pela velocidade do automóvel, flashes de câmeras fotográficas, imagens de toda sorte, nas telas cinematográficas, inaugurando uma nova linguagem, não combinavam com a realidade brasileira. A saber: um país agrário, que sequer vivenciara a sua própria revolução industrial; uma população mestiça e longe das letras; uma elite soberba e detentora do capital entre os estados do sul e sudeste, respectivamente, e uma tendência arrogante para um neo – ufanismo ilógico – retrato de um Brasil que se distanciava de um outro Brasil; um hiato secular que, ainda, estigmatiza, hodiernamente, uma nação riquíssima de outra paupérrima. Ora, diante de um fosso mais do que comprobatório de que o Modernismo foi de poucos e para poucos, somente o avião, inventado por Alberto Santos Dumont, poderia nos conceder a graça e o ar de sermos modernistas, de fato e de direito. Em uma analogia desafortunada à contraditória sentença histórica de Gonçalves de Magalhães, em 1836, na abertura do romantismo brasileiro, através da publicação e do lançamento, na França, da Revista Niterói: Tudo pelo Brasil, e tudo para o Brasil 3, as letras modernas, nestas plagas, estavam longe de evidenciar os perfis diversificados que compunham o dito ser brasileiro.
Do Achamento do Brasil, com a elevação da Carta, de autoria de Pero Vaz de Caminha, ao patamar de certificação oficial do nascimento da pátria verde – amarela, ao rompimento secular da barreira epocal, na qual a plêiade de escritores brasilianistas promoveu o desmantelamento da tradição literária, até então em voga, que fora o Modernismo de 1922, o lapso temporal inflacionou a história da Literatura Brasileira com teses assaz prosaicas, pouco verossímeis e, por conseguinte, pouco condizentes com a identidade real do homem, predicado com o adjetivo brasileiro. Os trópicos determinavam outros matizes, que escaparam à pena real, no tempo da Coroa Portuguesa, quando consolidou, esta última, o seu poder máximo na maior colônia, para além dos mares lusitanos, bem como fomentaram, sob a tinta desmedida dos românticos, o ideal de descoberta de uma face com as verdadeiras cores do Brasil. O ativismo da imprensa modernista, empilhando arte, cultura, política e economia, propagandava, em fast time, a inserção doutras naturezas, reconhecidamente distintas e, portanto, agentes renovadores sobre a questão da brasilidade, em plano primário, e da identidade nacional, em plano secundário – sonho quase tornado pesadelo, nas mentes brilhantes da elite cultural brasileira, desde os tempos da colonização.
Ora, o tingimento da grafia nacional recaía, de forma avulsa, e através de um processo extremamente violento, em tonéis vindos doutros cantos do Velho Continente. Os tempos chaplinianos e loquazes determinavam o traço mais do que moderno, em cuja vestimenta o Brasil fulgurava com um brilho dissonante, apresentando, desse modo, ao mundo, outras raças, novas cores; outros sabores, novas vertentes: os Imigrantes, a palo seco. A hedionda guerra mundial, nas duas versões em que foram produzidas, pelos ensandecidos germânicos, atormentou poloneses, húngaros, italianos, japoneses, judeus, e todas as gentes que se apinhavam nas modernas caravelas, e que, involuntariamente, fariam o redescobrimento do Brasil, e alargariam, em última análise, as fronteiras de uma miscigenação, marcada pela conjunção das três raças distintas, que compuseram, até o início do século XX, a feição aparentemente derradeira do ser brasileiro: o índio, o branco e o negro. Agora, a nau que atravessou novamente o Oceano Atlântico trouxe linguagens singulares, culturas díspares e tons multirraciais. Reside neste fenômeno extra-étnico o verdadeiro valor do Modernismo, em sua amplitude de significação e metassignificação, imperceptível aos olhos de seus visionários e defensores epocais. Uma outra revolução estava sendo gerada no ventre da cultura brasileira. Se coube aos ingleses a primazia da Revolução Industrial, selando, definitivamente, o modelo de economia no Ocidente, e aos franceses o privilégio de serem os arquitetos da Revolução Francesa, divisando a história moderna da contemporânea, coube ao Brasil, ao tempo do fenômeno da imigração européia para cá, a Revolução das Cores 4 (grifo meu), consolidando o prisma do multirracialismo, que predomina na etnia do maior país da América do Sul.
A outra face dessa revolução, que então se fazia, ao tempo da pré-industrialização paulistana, e responsável por conferir ao Brasil o assento histórico, como primeiro pólo industrial do continente sul-americano, adveio, sobremaneira, do congraçamento das etnias em cruzamento contínuo com o fluxo histórico dos elementos fundadores. A noção de cultura brasileira e a conceituação epistemológica sobre a possível identidade do homem, nascido em terras brasileiras, revisavam as fronteiras do painel elucidativo do ser que espraiou certezas e incertezas, verdades e não – verdades, perguntas e respostas etc, em uma terra de dimensões gigantescas, demarcando, na diferencialidade cultural, em última análise, os módulos variados, que determinam o perfil estilizado e, claro, inaugural, nos riscos latentes dos novos eldorados. Ufanismos desprezados, a linguagem multíplice do ser brasileiro estava sendo retonificada pela quantidade de melodias e acentos altissonantes, desmesurados e aparentemente assimétricos, nos cantos, recantos, encantos e desencantos, que lirizam a poética, qualquer que seja a sua predicação: aristotélica, platônica ou plotínica.
Os accents dos mais diferenciados, de culturas distintas, dos povos imigrantes, trazidos para esta terra, sob o lema da crise mundial que assolava a Europa do entre e do pós – guerras, respectivamente, sustentaram o sentido antropofágico do ser brasileiro que, nestas planícies, agigantava-se como espinha dorsal do Modernismo, elegendo, em seqüenciamento temático, o descaratismo do legendário Macunaíma 5 como rubrica de uma raça à cata de uma assinatura legítima e majestosa. Os valores europeus, à época do descobrimento, graças à insistência da turba que sacudiu as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, em 1922, estavam soterrados; e as novas moedas em circulação cunhariam, ao longo de toda existência do modernismo nacional, a marca ficcional e miscigenada da letra artística, que então se apresentava, reconstituindo, por fim, o traço emergente de um ser que não era mais a aparência exótica, impingida pelo olhar do estrangeiro, e nem tampouco a representação de uma força híbrida, desprovida de qualquer significação relevante, no que concernia à construção de um pensamento e de uma teoria concorrentes sobre o homem dito brasileiro. Eis, portanto, o arquétipo que baliza, com efeito, o nascimento do Homo brasiliensis.
A partir do estatuto da brasilidade, modelo arquetípico e plasmado no desejo inconsciente daquilo que se compreende por brasileiro, o radicalismo da cultura nacional redimensiona o fulcro conceitual, cuja tradição remonta às primeiras críticas gregorianas, ao tempo do Barroco, e estabiliza a problemática sobre a questão geopolítica do país pelo viés da multirracialidade. Paulatinamente, clarifica-se para o pensador, o historiador, o historiógrafo literário, para o crítico da arte escrita, e, principalmente, para o poeticista, o estado contingente dos fatos amontoados, em quase meio milênio de existência do Brasil, certificando, destarte, a Literatura Brasileira como lâmina especular de várias realidades, que não estão circunscritas no eixo de uma escrita literária, nuclearizada pelos sulistas e alavancadas pelos nordestinos, como bem trata a arrolagem canônica da referida literatura. Em verdade, o refinamento teórico – crítico, no segundo quartel do século XX, desponta para escrituras coexistentes com o modelo balizado pela crítica literária, nos turnos dos saberes acadêmicos.
A redescoberta do Brasil, conforme a minha proposição neste ensaio, que se intitula A Poética do Verde, é a pedra angular para as devidas rediscussão e revisão sobre a literatura, predicada nacional; sua titularidade representativa e sua postulação como a voz legítima de uma nação, que não incluiu na arrolagem canônica a letra artística do povo, a priori, denominado estranhamente de Amazônida. Claro está, que a fundamentação inicial a ser buscada, a partir do circuito amazônida da linguagem, ainda é insuficiente, pois a linha geopolítica, que desenha o espaço do elemento fincado em solo amazônico e sua expressão cultural, em sentido amplo, carece, sobremodo, de uma reflexão mais adequada para a construção e o soerguimento de um corpo translúcido, distinto e marcadamente brasileiro, que espelhe a verdade humanística, em abertura profícua, no coração da floresta, ou no universo verde, se é possível promover tal abordagem.
O empreendimento de uma possível Ecopoética 6, vinculado ao modus procedenti da tarefa hermenêutica, apresenta-se, de forma basilar, como instrumental objetivo para a compreensão do Ser, modulado nas letras emergentes da região norte, brasileira, tendo como fundamentação inaugural a busca pelo sentido primevo daquilo que é amazônico, amazônida e, portanto, nacional. A delimitação de um espaço geográfico, que ultrapassa a territorialidade da Amazônia, invadindo, com suas fronteiras, outras nações, faz deste universo uma locanda de identidade diferençada daquela, apontada pelo processo histórico de formação do homem dito brasileiro, em análise primária; entretanto, necessária para a compreensão da universalidade, levada a cabo, na Semana de Arte Moderna, arrebatando o antropofagismo modernista de 1922, em análise secundária. A redescoberta do Brasil atravessa a Amazônia, encharcada de borracha, povoada por portugueses, espanhóis, sírios e libaneses, e dominada por manauras, nobres equatorianos, que se contrapuseram aos descendentes de uma corte européia, e, portanto, ricos, instalados no Rio de Janeiro; e consolidada pelo sangue derramado e plasmado, de forma inconteste, pelos nordestinos, no final do século XIX e princípio do século XX, quando a dinastia dos seringais parecia representar o ideário das terras do sem fim, tropicalmente infernal, nos limites vorazes do espaço verde.
A historiografia literária, de cuja escrita emana toda a trajetória da própria Literatura, se não excluiu, deixou de incluir o imaginário do povo que surge vigoroso e legendário no seio da floresta. O rastreamento de símbolos ou de um emblema, que marca esses “estrangeiros brasileiros”, aos olhos da história e da crítica literária, de base canônica, respectivamente, construiu, desde a fundação das escrituras que tematizam a Amazônia, o elo perdido da história da literatura e da literatura artística, em análise contínua. Última peça a ser encaixada no complexo quebra-cabeça denominado brasilidade, a Amazônia invisível dá visibilidade ao pluralismo vertente de um pós-modernismo, que não se configura na arrolagem consagrada dos textos modelares da literatura dita nacional, e que, ainda, está à guisa de uma reflexão profunda sobre os veios mais essenciais que decidem, com efeito, o nascedouro do Homo brasiliensis, com sua linhagem representativa e sua linguagem distintiva, no âmbito regional, a priori, e no espaço universal, a posteriori.
A figura do índio, distante da imagem cristalizada pela ótica do colonizador, na época do descobrimento, “exoticamente” plantado no litoral, bem como aquele que foi vilmente ultrajado e transgenicamente modificado, na letra romântica, no caso da floresta, é a voz plena da Alteridade que emerge para dialogar não mais com o branco, mas com todas as falas exógenas, que parecem promover um fenômeno renovado das entradas e bandeiras, agora, na rota crescente do Pacífico – a via marítima do Terceiro Milênio. O índio, nas plagas verdes, é outro ser. Soturno, silencioso, interagindo com a floresta, ocupante e protetor do circuito verde, este senhor da floresta constitui-se, através da revisão sobre a identidade do ser brasileiro, na própria linguagem, que, desde 1500, conversa, dialoga, protesta, resiste e, sobretudo, representa a essência da terra brasilis – latinamente conceituada, mas não brasilianamente experienciada por todos que intentaram modelar, no barro, um ser que jamais tivera o fôlego da vida. Entre a teoria e a prática, havia um fosso que, gradativamente, estava sendo desfeito, e que continua, hodiernamente, nos desdobramentos pós-românticos, pós-modernos e, quiçá, pós-contemporâneos, de acordo com a assinatura de um século que expirou recentemente: a vigésima segunda edição. O pensamento pós-metafísico da / na passagem finimilenar e finissecular parece, a meu ver, conferir o acento adequado para o soerguimento de um ideário completo, em cuja configuração os elementos ditos brasileiro, brasiliano, brasilidade, brasilianidade, brasilianismo, brasiliense, dentre outros, promovam, sinergicamente, o fenômeno da revelação sentencial, que determina a identidade primeva do Ser do / no Brasil, e seu DNA distintivo entre as culturas identificadas pelas letras histórica e artística, respectivamente, no planeta.
Os modernistas de 1922 cometeram o pecado capital, já protagonizado pelos românticos, no século XIX, quando pintaram, em telas imaginárias, e descreveram, em folhetins utópicos, um ser que jamais fora conhecido, e que, certamente, surgiu natimorto. O delirium tremens acometia o imaginário nebuloso dos que empunhavam a grafite para desenhar uma figura, que mais descambava para a caricatura do que para o perfil real dos móveis representativos de um ser genuinamente brasileiro. À peia secular, seguiu-se um constrangimento cultural, no qual a letra artística, constituída em vários contextos literários, rasgou as teses históricas sobre a identidade do homem nacional, impondo outras faces, outros olhos e outras vozes, no portrait, em terceira dimensão. Abaporu, afortunadamente, consistira, à época do Modernismo, em um desenho ímpar, cujo traço distintivo mostrou, na lateral, uma das verdades a ser desvelada, dentre outras, no meio de tantas caras e bocas que multifacetaram, ao lado da polifonia, que caracterizou e marca a cultura brasileira, em toda sua magnitude e grau de expressão, um ser plural, contornado pelas margens da singularidade; elevando, em patamar ulterior, as letras brasileiras e sua mensagem, hermeneuticamente decifrada, à assembléia modelar dos consagrados desbravadores do Mundo Novo.
A inserção doutros elementos, para pautar uma reflexão justa sobre o projeto de construção da identidade nacional, redispõe o espaço natural e a verdade cultural, no itinerário dos 500 anos de idade da nação brasileira. Explorado sob todas as formas e santificado pela lírica e prosa, respectivamente, o índio ascende à condição de herói pelas mãos híbridas dos intelectuais do século XIX. Todavia, a problemática a ser considerada dispensa a sentença que vituperou a (sua) natureza, os (seus) valores e a (sua) cultura; violando e violentando, de forma radical, o mundo equivocadamente classificado de indígena – ocorrência paradoxal que vige, ainda, na atualidade. O adensamento da questão, portanto, arrasta outros emblemas para a compreensão do circuito verde, com seus atores, cenários e performances. As personagens não ficcionais, e sim, reais - partícipes e protagonistas do / no universo amazônida -, não se coadunavam nem com a rubrica nacionalista, erguida e cristalizada pelos românticos, nem tampouco com a tinta da caneta esferográfica dos modernistas. Assim, atrás da figura arquetípica do índio, que se transformava em uma categoria terceirizada pela História, nadificada quanto à classificação de tônus teórico, estava um ser que flutuava entre o papel e a escrita, entre o imaginário e a realidade, entre o real e o não – real. Na zona intermediária, a despeito de qualquer tentativa vã de repassar a verdadeira estória de um elemento mais do que fantástico, logo, sobrenatural, pois trazia consigo outros índices velados e reveladores doutras dimensões, o olhar míope do invasor, quer seja o de sangue azul, quer seja o do descendente, que aqui nasceu, praticara o ato mais grave de todos, ao erigir a sentença que determinaria, com efeito, a essência, e, por conseguinte, a identidade do ser brasileiro, provocando, em última análise, um desvio epistemológico sem precedentes na historiografia literária. Qual seja: ao excluir a natureza sobrepujante da linguagem emergente do universo verde, os primeiros brasilianistas não incluíram na tese sobre a brasilianidade a matéria – prima que substanciou, significativa e metassignificativamente, todo placentário que sustentou os intelectuais máximes, ao longo da história de um país chamado Brasil e de uma literatura denominada brasileira.
A poiesis de fundação de um mundo a ser descoberto, constituindo-se em um amazonismo crescente, através do guache de um realismo exacerbado ou de um expressionismo tropical, é, indubitavelmente, a representação mítica que descerra, visceralmente, o índio, disseca a terra nova e apresenta à Alteridade outras vozes, outras gentes, outras estórias, legendariamente; deslindando dimensões, que, do fantástico ou do sobrenatural, realizam-se, hiperrealizam-se; renovando os matizes de uma cultura que, segundo a minha visão crítica, ultrapassa a fronteira do multirracialismo para modelar um estágio evolutivo, no processo de construção do ser brasileiro, em sua complexidade estrutural. Objeto em terceira dimensão, quiçá um corpo prismático, rascunhando a visão aristotélica acerca da realidade luminosa, em gradação constante, o elemento ontológico, em alto-relevo, abre fendas epistemológicas como bisturis rompendo, friamente, as carnes de um tratado convencional, que arrolou diversos escritos sobre uma literatura nascente, mas que não considerou a letra e a cultura já existentes nestas terras.
O repasse da História não é uma estratégia de apelação jurídica ou algo semelhante para redispor as peças de um quebra-cabeça em seus devidos lugares, a fim de que o rosto multifacetado do brasileiro se reconstrua diante de outras faces grifadas distintamente no planeta, em tempos agudos de globalização. O pincel de Tarsila do Amaral, ao reproduzir na tela modernista os traços negróides e exuberantes de uma fêmea morena e rústica, em cuja modernidade avultava-se um porte naturalístico, não deixou herdeiros diletos para a confecção de uma aquarela genuinamente brasileira, onde as gentes das florestas mais distantes do litoral pudessem configurar a outra face do Brasil, com direito de voz e voto para se autodeterminarem tão altivas quanto às imagens clássicas que povoaram o imaginário coletivo da elite cultural brasileira. Falta acrescentar à verdade ora posta ou, talvez, reposta, que o matiz, agora, antes de ser plural ou multicolor, é verde, por excelência. Destarte, é legítimo asseverar que a floresta invade, definitivamente, a cidade; os seres da floresta retomam seus lugares originários, enterrando todas as sentenças de alijamento no processo de construção de um ideário sobre a identidade nacional, que foram defendidas, ao longo do meio milênio de existência de nossa terra. Eldorados à parte, portanto, ou mundos perdidos, na ótica enviesada de um europeu arrogante e descontextualizado, o Ouro Verde resplandece na aurora do século XXI, e a letra artística da Amazônia, que derruba fronteiras e alcança pátrias hermanas, consagrando o pacto de uma historicidade ibero-americana, emerge da clareira aberta, no ventre das terras virgens, para revelar ao outro Brasil a fala silenciosa de povos excluídos da História e da Literatura consagrada pelo canonismo decadente.
O ser redescoberto no circuito verde impõe questões renovadas no que tange à ontologia, que redefini(rá) a essência do elemento considerado brasileiro, em análise medial. A escrita artística, revelada pelo itinerário das personagens, que constroem o vértice de uma linguagem transmodelar, inaugura, com efeito, um novo período na literatura nacional, em análise de fluxo contínuo. Em cena aberta, o Homo brasiliensis.

João Carlos de Souza Ribeiro

- Referências:

1. RANGEL, Alberto. Inferno verde. 5. ed. Manaus: Editora Valer, 2001. p. 93.
2. A referida terminologia emerge como evento, a partir das discussões crítico – teóricas acerca do Modernismo, no que tange à falha epistemológica da corrente em tela, no turno da historiografia literária. A tarefa empreendida pelo poeticismo incidente comprova, desse modo, o fenômeno, que ora denomino, de contramodernismo, cuja rubrica assinala o distanciamento filosófico entre as possíveis teorizações sobre as obras classificadas como modernistas e sua relação díspare com a realidade em voga.
3. MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. Vol. II. 12. ed. Cultrix, São Paulo, 2006, p. 18.
4. Lancei, oportunamente, neste ensaio a referida nomenclatura, pois, ao meu olhar crítico, a integração dos imigrantes ao processo cultural brasileiro, em última análise, demarca a fronteira do ser brasileiro, que é reconhecido não somente pela composição das três etnias distintas, consagradas pela História - o branco, o índio e o negro -, mas através do advento da segunda onda de miscigenação, que ocorreu no final do século XIX e início do século XX, e que fará do ser dito brasileiro este elemento multirracial e, portanto, diferencial entre as culturas emergentes no planeta.
5. Personagem principal da obra homônima de Mário de Andrade, que se baseou no ser legendário, presente no folclore nacional e emblemático para a representação da cultura brasileira, em última análise.
6. Inauguro, a despeito da minha pesquisa atual, Transmodelos Poéticos: linguagens em circuitos, reflexões diversas acerca do estatuto da Poética e sua atuação na contemporaneidade, bem como a atualização discursiva daquela em poéticas distintas, em profusão, e não arroladas pela crítica canônica. A meu ver, a Ecopoética emerge dos textos da / sobre a Amazônia, em cuja temática o espaço verde é a personagem principal; e sua mensagem visa ao resgate primevo de uma identidade que complementa o ideário acerca do homem dito brasileiro.