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27 de abril de 2013

O HOMEM (É UM) CUBO


A concepção do Homem sobre a sua constituição esotérica e iniciática está cifrada em um mistério de dimensões atemporais. Assim, jaz na própria Eternidade a fagulha incendiária duma consciência protoimaginária, quiçá responsável pela aparição, pela descoberta de si e, sobretudo, pela forma que o ser das contradições assume na realidade;  muito mais do que uma grande ilusão de ótica do que uma constatação real e de significação modelar, que possa transformá-lo em uma entidade suprema; e, portanto, primo na cena do Universo. Neste sentido, não é despretensioso afirmar que há um abismo colossal entre aquilo que deveria ser e aquilo que efetivamente é na complexa geometria da vida. Logo, um corpo diante do espelho não duplica outra identidade, mas, antes, uma imagem. Uma imagem que nada tem a ver com o corpo que a originou, mas apenas um reflexo. No entanto, a imagem jamais será um corpo, pois, para além do reflexo, ambas as categorias habitam espaços distintos e impenetráveis. O corpo jamais poderá adentrar a realidade especular; e a imagem, por sua vez, jamais será um corpo. As verdades são coexistentes e paralelas. Desse modo, o desejo de ser além de si mesmo é algo que causa turbulência no Homem ao compreender-se como ser nomeado pelo espaço marcado pelos limites e pelas margens acidentais. Decorre daí a impossibilidade de o corpo ser a imagem e/ou a imagem ser o corpo. Onde há corpos, as imagens são meras ilusões duma realidade, que ninguém sabe exatamente o que é; onde há imagens, os corpos são refrações imperfeitas, que não significam absolutamente nada; mas, antes, sugerem, na linha do possível, aquilo que pode ser e o que pode não ser.



Uma das tarjas que estigmatiza o Homem em sua caminhada mística é, sem sombra de dúvidas, o dualismo. Este dualismo é a fenda aberta, que divisa todos e tudo aquilo que se sustenta na realidade circundante em aberturas e fechamentos incontroláveis, desconhecidos e necessários para a existência e a permanência da força sobrepujante do Real. Não há espaços de junção ou de religação. Qualquer tentativa, nesse sentido, é ato gerado por estados constantes de hipocrisia; de falseamento da realidade externa, pois, o Homem, ao refutar-se a si, procede a outra espécie de esvaziamento. Uma ação calcada no vazio das ações desobjetivadas e que são destituídas do exercício pleno do autoconhecimento: tarefa que as consciências, libertas das amarras terrenas, deveriam realizar para que a legítima dessubjetivação acontecesse para elevar o Outro a patamares sempre altaneiros e em progressão contínua e perpétua. Eis, portanto, o princípio do Altruísmo: o vaso - kli - é preenchido; posteriormente, a peça é esvaziada para preencher outro kli, em uma rede infinita de vidas para que a Luz essencial atravesse os poros e ilumine, de forma contínua e inesgotável, outros infinitos klins no mundo das formas e de substâncias palpáveis e perecíveis. A luminosidade, elemento exógeno, por excelência, invade e plenifica o Kli para que este reflita a luminescência em outros vasos. O contrário dessa ação revela, para além da estagnação, o dualismo que põe em xeque a identidade do Homem, sua missão no mundo como desdobramento da Eternidade e sua capacidade para o exercício efetivo da descoberta de si: condição sine qua non para seu verdadeiro crescimento como fragmento deslocado de uma realidade suprema e ignota, à luz das ciências telúricas, e para libertação do corpo físico que o (con)trai em proporções minúsculas, dada sua natureza irrevogavelmente selvagem e muitas vezes indomável.



Se, por um lado, o dualismo, acima referido, cinde ontologicamente o ser humano em duas partes distintas, onde o seu estado originário, antes uno e aparentemente indivisível, é dividido violentamente, provocando os conflitos, as crises e os confrontos, que exuberantemente revelam a fragilidade do humanus humanum; por outro lado, este dualismo revela, na cisão, o paradoxo da existência. Qual seja: há um espaço torneado no interior limitado de cada um; há linhas sinuosas, herméticas e sem fim nos lados largos, retilíneos e perfeitos dentro de cada ser, que fora fissurado nos primórdios. Há, com efeito, uma esfera mais do que perfeita flutuando, orbitando, misteriosamente, no espaço cúbico de todos os homens e mulheres, que, um dia, nasceram, cresceram e morreram. Eis, portanto, a face globular do enigma: esferas suspensas só existem pela força dos cubos que as guardam. Cubos só sobrevivem em virtude das esferas, que, veladas, mantêm aqueles em estado vital. Uma relação simbiótica? Com efeito, não é a resposta.  A constatação do fenômeno ou a consciência dos seres sobre si e acerca das coisas, como são na realidade, é a prova cabal de que um fio maior de existência alinhava dimensões, que não são contrastantes em ambientes singulares, mas que se complementam através do dualismo, que, em última análise, impõe o duplo como régua; a régua como medida; a medida como equilíbrio; o equilíbrio como eco; o eco como princípio. O princípio inquestionável de todas as coisas, que pulsam e que vão além do sangue, em cadeias de códigos indecifráveis para a compreensão humana; i. é., a Vida, a fonte inesgotável,  presente em todos os universos existentes e aparentemente improváveis.



A natureza cúbica, que torna os humanos entidades singulares no audacioso plano da Criação, está determinada em sua equação poética e fundadora dos 4 elementos caóticos, que constituem o ser humano. A saber: a Água, o Fogo, a Terra e o Ar. Sem estes princípios, o Nada Absoluto não teria sofrido a indevassável metamorfose, que transformou a matéria amorfa em substância modelar,  com significantes e significados, espalhados na vastidão do Universo. Sem este princípio, a compreensão humana jamais teria existido e o Ser, gerado e nascido pelo sopro da divindade maior, não teria produzido a energia originária, que move os entes a portarem (trans)biologicamente a vida. Tudo isto nos limites cúbicos e perfeitos, que balizam o código que identifica a bestialidade e a inteligência, ambas presentes, dualisticamente, no Homem: personagem encravada no cenário perfeito da physis. Nem tampouco os pré-socráticos, na Grécia Antiga, poderiam dar à luz os seus ensaios filosóficos sobre a existência e os mistérios rotundos, que ultrapassam o sentido imanente das coisas, através de uma prática contínua do pensar a partir dos elementais que fundaram o visível, o invisível, o aparente e o não - aparente. No entanto, a força concêntrica e modular do cubo não está no encontro perfeito de suas retas em ângulos gêmeos e fantásticos, mas na circularidade de sua massa interna e invisível, que dá sentido a outra forma geométrica perfeita, e, que, em conjunção com aquele, promove o equilíbrio e religa o Homem às suas reminiscências como centelhas desprendidas de um fogo inconsumível, no tecido da própria Eternidade. A Parte e o Todo estão lado a lado, mas não se tocam. A despeito disto, portanto, impõe-se a questão fundamental: o cubo protege a esfera ou é a esfera que sustenta o cubo?



Para se descobrir como cubo é necessário descobrir-se como esfera. Para ser esfera é necessário ser cubo. A questão cúbica está no axioma esférico; a sentença esférica completa-se na ordem cúbica. Ainda que intangíveis, cubo e esfera interpenetram-se em uma dimensão flexível, plasmática e informe; dimensão à qual humano algum jamais tivera acesso. Lugar de flutuações cósmicas e amalgamado pelo Antigo dos Dias. Mas quem é o Antigo dos Dias? Seria o Antigo dos Dias uma essência humanizada antes de o Homem ser formado; antes de o Kli ter tomado forma ou ser moldado como vaso nas mãos do Oleiro? Há um vácuo e um espaço, aparentemente desprovidos de substância, que, no vazio que não é, no nada que se apresenta como categoria do estádio zero das ontologias possíveis, que uma força presentifica-se e marca o não - tangível como latejamento indeterminista do Inefável. Inefável que encerra o mistério num penumbrismo profundo e silencioso; Inefável que lança a equação do enigma - enigma que sustenta no ar a esfera que revitaliza o cubo e o cubo que retroalimenta a esfera, e que mantém o Indizível no trânsito das forças ocultas, resguardando o traço da entidade suprema, que está em todos os lugares, ubiquamente, e que não está em lugar algum - princípio do paradoxo e dos seus contrários, onde a esfera jamais poderá ou será recortada para se tornar um cubo, ou um cubo que jamais poderá ter suas retas encurvadas sobre si mesmo para se transformar em uma esfera. Princípio da imutabilidade do que é; que é do pertencimento do infinitivo de um tetragrama insondável e sem qualquer tradução na linguagem que define o Homem como um ser cúbico e portador de uma esfera essencial.



Cubos não formam esferas, mas dão sentido à sinuosidade que perfaz os pólos insondáveis, que há em cada entidade luminescente no universo. Esferas também não formam cubos, mas engendram o fio da existência, que não interrompe ciclos, mas renova-os, através de um processo contínuo e singular de transformação e renovação. O princípio do Tikun, como lei fundamental, arregimenta, no sinergismo do cubo e da esfera, em consonância exemplar, o fenômeno da energia em constante mutação. O princípio mutatis mutanti rege, portanto, todos os graus de vitalidade, que constituem e conferem a densidade da rede complexa, que é a Vida, estendendo-se das estruturas adimensionais dos nanocorpos, presentes no Real Absoluto, às dimensões gigantescas dos polimorfos, que sustentam a própria rede, na qual a vida multiforme repousa e reina soberana como energia essencial. A cadeia que não tem fim é a constatação inequívoca de que os espaços modulares descrevem a rota da perfeição. Assim, a consciência finita e limitada de cada ser, que, paradoxalmente, vislumbra em lapsos temporais o rastro do Infinito e o reflexo da Eternidade, através de uma memória parcialmente perdida ou localizada em registros fragmentados, percebe em si mesma o traço robusto da perfeição, que não está distante ou alhures de cada qual, mas, antes, está internalizado e, simultaneamente, interligado à ordem suprema, que não distingue gradações ou sistemas evolutivos da luz nos corpos suspensos, no vácuo dos espaços nomináveis e não - nomináveis.  A esfera, o avesso do cubo, deflagra geometricamente o perfectum, simbolizando no arquétipo da Humanidade a lacuna, o vazio, a falha que permite ao Homem o sentimento da busca da completude que não tem. O perfeito denuncia a natureza do imperfeito. O cubo, por sua vez, emoldura o estado de uma perfeição inaugural na qual a esfera é uma sombra distante de uma natureza em suspensão. No cubo, os limites; na retidão de suas linhas, a necessidade de evolução e o desejo de expansão para além de suas fronteiras.



A sorte, a fortuna, o fado e o destino - lados idênticos de uma realidade, que experiencia no ar o jogo mortal que envolve todos os seres - os vivos e os brutos - na teia da Vida. Na vida, um cubo, que jogado para o alto, decide os caminhos que devem ser seguidos por uns ou atalhados por outros. Na superfície do cubo, a realidade em mutação constante, cujo contraste com as linhas retas e aparentemente sólidas denuncia as esferas que tonificam e dão sentido ao mistério que há em cada um, promovendo a elevação espiritual; desfazendo em espaços, progressivamente em expansão, os limites que aprisionam fôlegos em corpos efêmeros; grilhões que se rompem, onde as formas, geometricamente perfeitas, se desconstroem para conceber outras realidades, outros mundos; energeticamente completos e ascéticos. Assim, cubo e esfera, diferençados entre si, mas complementares em suas essências fundamentais, permanecem inatingíveis e incompreensíveis à vista do humano demasiadamente humano. A realidade cúbica é irreal sem a força motriz, operante e transformadora da esfera. A realidade esférica inexiste sem a blindagem do cubo, que, ao proteger as curvas perfeitas da esfera, guarda o enigma imemorial de um tempo mais antigo  do que os próprios dias, mantendo, simultaneamente, na imensidão de um horizonte afiado em uma linha mais do que reta, a vértebra espiralada, que une cubo e esfera em um espaço ímpar: móvel  intáctil de uma linguagem, cujo sentido é vedado às hordas angelicais e proibido ao acesso do Homem. O vaso - kli - é instrumento irrevogável para a recepção e posterior transbordamento da Luz; da sua aparição, provinda das mais altas esferas, aos poros unicelulares dos corpos vazados. Os klins, em cadeias infinitas, flexionando o plural na própria singularidade, transformam a luz do espaço superior em energia pura, densa e não - quantificável na dimensão inferior. Cubos e esferas conjugam-se harmonicamente para consagrar nas realidades multidimensionais a universalidade, a imanência, a transcendência e a permanência no Infinito da equação misteriosa, que faz do cubo uma esfera perfeita e da esfera um cubo em movimento retilíneo e curvilíneo -, sintagmas grifados no código genético da espiritualidade, que une os elos descendentes e ascendentes em cadeia insofismável.  A par disto, emergem duas questões fundamentais: por que um dado, algo tão singelo e singular, só tem sentido se for retirado de seu estado inercial? Um dado, jogado para o alto, não se transforma em uma esfera quadrática? Ao tombar na tábua plana, o que sobressai aos olhos inteligíveis não é a face laminar de um dos lados iguais, mas a esfera numérica, que decide o destino do jogador. O quadrado repousa, mas a esfera gira. No giro da roda, a rota do destino - veredas barrocas, mapas do livre arbítrio. Na dimensão do cubo, a face enigmática da perfeição, que se desvela pela emergência dos números - senhas perfeitas, que permitem escoar nos limites humanos a própria infinitude; cenas caóticas, cósmicas e, sobretudo, divinais, contempladas todas pela consciência klítica - candeia viva que jamais se apaga. Imperfeitamente perfeito, o Homem é um cubo.

4 de agosto de 2011

Ensaios de Cabala: o NADA que SOMOS e o TUDO que deveríamos SER.


- ATO I -  

No ventre alongado do universo, o Nada Absoluto. Sinônimo de Ausência. Vácuo eterno e vapores essenciais: paisagens remotas da Eternidade. O fluxo hiperbóreo espargia sobejamente sua energia antes do nascimento do Tempo, e o possível condensava o TUDO em seu devir devastador - tudo aquilo que não estava ainda; tudo que viria sob a luz e as cores do esplendor, em sua glória refulgente. Sobre o NADA, a sombra transparente do Caos devorando o que não existia: atos da germinação que, na garganta do grande Abismo, a saliva fecundou, através da palavra, a maravilhosa obra da Criação. Teofagicamente, a canção dos primórdios, de corpo ágrafo, entoou sua melodia inaudível. Ninguém era, ninguém estava. 

  • A Lei: verbos elípticos e sons eclipsados no silêncio dos magmas fundadores - espetáculo de Vida e Morte.

- ATO II -

O Nada nasceu e concebeu o TUDO. Presença soberba dos elementos inanimados e das formas multíplices de vidas: as primevas, as incompreensíveis, as simples, as complexas, as etéreas e as densas. O Eterno se desdobrou sobre ondas infinitas e esféricas, e, no dorso da parábola da Luz, kairós e Chronós se imbricaram na tangência neutra. No zero, o ovo cósmico; na cápsula atemporal, a partícula suprema da Criação - fabulações fantásticas do Princípio Absoluto, que mantêm a ordem e a desordem em quantificações ininteligíveis. Determinismo e indeterminismo antagonizam-se na gestação cruel da finitude desde os primórdios. Na partilha do ovo, a emergência do dual, as contrações sísmicas e a dor titânica.

  • A Lei: a dualidade excêntrica e o ser primordial bradam o eco na espiral do tempo. 

- ATO III - 

No grande e interminável rolo - o papirus ígneo, cósmico, brilhante e espiritual - o verbo essencial, em sua modulação espectral e fantasmagórica, descreveu a passagem dos sulcos infinitos para as vagas finitas. Nas marés siderais, geneticamente assimétrica e hiperfractal, a invisibilidade da energia formava universos, galáxias, estrelas, planetas, e todas as formas vivas e singulares que povoam as dimensões conhecidas e desconhecidas para a visão humana: frágil, limitada e torpe. Entre o Real e o não - Real, o assombroso vácuo, onde os enigmas fundamentais estão guardados sob o selo da pedra mais que angular. Termos, pontes finais, corpos abissais e a nefasta zona de penumbra em que o Abismo, imutável, reina soberano.

  • A Lei: a conexão entre o mundo superior e o mundo inferior transformando o verbo no cordão de prata, que mantém as dimensões singulares em permanente estado de equilíbrio. 

Os três atos, apresentados acima, poderiam ser o inenarrável evento que engendrou o drama da Criação, em seu apogeu e glória, e sua vértebra espiralada flutuando no espaço infinito. As mãos abraçadas da inteligência suprema, pairando espessa e silenciosamente sobre o NADA, ainda absoluto, desprenderam-se, uma da outra, e os dedos do Criador, que estavam cerrados entre si, afastaram-se, num ato único e monumental, para abrir a cortina do Inefável! O espetáculo da Vida, então se iniciara, e o DNA essencial, poeticamente trançado, sugeriu, para além da imaginação humana, a possibilidade de ter sido, desse modo, a gênese da qual todas as coisas e seres, que são partes integrantes e inalienáveis da energia, que dera origem a tudo que é sensível, e que sobrevive nas várias realidades - cognoscíveis e não cognoscíveis - a misteriosa equação, donde emanou, de forma colossal, o líquido, o sangue e o hálito; as substâncias que aqueceram elementos corpóreos e incorpóreos para comporem a paisagem harmônica da proto-esfera, na qual entes e coisas divagavam indefinidamente. O NADA, assim, deixara de ser absoluto, e o TUDO fremia, no espaço nascente e em expansão profícua, o som polifônico da relatividade: filigranas que teceram na invisibilidade o grande texto visível, e tornaram, desde sempre, o visível em invisível. Diante do paradoxo fenomenal, uma questão se impõe: um convite à loucura ou a crueldade de uma inteligência suprema em relação à própria criação?
Bumerangues apartados, o que fascina à Humanidade não é a revelação dos segredos que subjazem a criação de tudo que pulsa nas artérias do Cosmo crescente, segundo os físicos quânticos, nesta atualidade, mas a permanência inabalável da verdade e seu trajeto sem fim, diluindo existências e reduzindo a pó todas as realidades, que se apresentam como edifícios sólidos diante de olhos que sucumbirão, um dia, na grande avalanche do Armagedom. É pétreo asseverar, portanto, que a verdade é uma cartilagem gasosa e a face humana - um contorno distante, que fora perfeito, quando o tempo não existia - em nada se assemelha ao estilizado desenho de um rosto, também humano, eternizado sobre a fantasmagórica paisagem de Cidônia, em Marte. 
A construção e a desconstrução da verdade, como um bólido que navega e retorna ao ponto de partida, parece ser uma das lógicas de algo ou de alguém, ou, talvez, de ninguém, que estivera, está, e, por esta via, deverá estar sobre o infinito para segurar as grandes (e) (super)cordas que sustentam, no oco do universo, todos os corpos, inertes e em movimento constante; todas as ânimas translúcidas e sombrias, que viajam sobre as ondas magnéticas, sobre a luz, sobre os fótons, e, também, sobre as vibrações de energia criptografadas e atemporais. Iluminados ou não, nascidos nas sombras ou emergidos das trevas, que consomem tudo que é perceptível e que dispõe de massa, e não pertencem, desse modo, à natureza limitada e limitante do ser humano, os desejos primordiais são forças que coexistem desde o surgimento magistral da Luz, que clareou as esferas viventes, em gradações plurais e singulares, e que se perdem no adimensionalismo da própria expansão do princípio, em sua força absoluta que não cessa de Ser - força motriz, que não se esgota na matriz do próprio Universo. Princípio e precipício, neste sentido, se confundem nos ares que dominavam o espaço sem forma, e a massa informe, sob o fogo que forjou do barro o coração adâmico, e do forno as criaturas instintivas, era a substância plasmática, condensada e rica em nutrientes fundamentais: partículas geradas no esplendor da Criação. 
Dos desejos, ainda, cabe ressaltar que todos são frutos da cobiça, dos desvios e das primeiras linhas sinuosas, que traçaram os desígnios insofismáveis da imperfeição. Móveis cegos, sem direção; egoístas e destruidores em sua essência, pois são e estão presos à natureza que os transformou nos sentimentos da fundação do NADA, e, por conseguinte, do TUDO, que, estranhamente, padece por causa das dores originais, perdidas em tempos imemoriais. Impulsivamente, os desejos primevos são goelas gigantescas, que sugam para dentro de esôfagos infernais a matéria que dá sentido a tudo que está no planalto da Criação. Obra prima que, em sua constituição genética, vibra como teia de linho fino e resistente a se espalhar vertiginosamente, para cima, para baixo, e para todos os lados; plenificando espaços e não - espaços, promulgados pelo Princípio Absoluto. 
Portando a própria vida e encadeando os elos enigmáticos, que correspondem à identidade da inteligência suprema, o NADA e o TUDO se confrontam, em duelos épicos, nas ramificações que se desmembram a partir da Árvore da Vida. As sephirots e sua representação nos flancos dos mundos revelam a conexão infalível entre o Criador e a criatura, denunciando o maior paradoxo na / da Criação: a dependência da entidade suprema em relação à primícia de sua criação, e a independência irrestrita da criatura. Assim, a entidade suprema sonhou, no absolutismo do NADA, o desejo da (sua própria) perfeição, em um exercício marcado pelo duplo: a autoflexão e a auto-reflexão; e que, na proclamação de sua ordem, seu desejo se materializou no TUDO. No TUDO, cuja lei fundamental emergiu da liberdade incondicional da criatura, expressada pelo livre arbítrio, para deflagrar, em processos latentes, os choques das forças antagônicas dos primórdios. Princípio do desvio, da errância, que define a Criatura no risco de sua existência, pois o embate das energias primordiais, imbricadas e conflitantes, geraram a força motriz, e que, por sua vez, move todas as estruturas possíveis, existentes nos mundos e nos universos paralelos e não - paralelos. Desse modo, a dualidade, em confronto contínuo e permanente, provoca, no atrito dogmático, a tensão que está presente no TUDO antes de o NADA existir, de fato e de direito.
Enraizada desde o NADA, a Árvore da Vida, com sua estrutura fundadora, vibra em consonância com a luz, emitida do estado zero da Criação, e que, em gradações infinitas e constantes, modulam os feixes da tensão, que estão presentes nos corpos animados e inanimados: elementos nomináveis e inomináveis, que sempre transitaram e transitam nas esferas da matéria e da antimatéria. Este tensionamento é a prova cabal de que todas as naturezas, das mais simples às mais complexas, são marcadas pelo código fundador da dualidade em estado de autoflexionamento. Na dualidade, o equilíbrio, mas, também, na dualidade, o desequilíbrio. Há, na criação, portanto, uma fissura fundamental, que, ao longo de sua existência - do processo fenomenológico à formação de todas as entidades - provoca a inversão polar da essência: o TUDO se transforma no NADA e o NADA se transforma no TUDO.
Ao deixar o absolutismo fundador, o NADA eclode na imensidão da eternidade e o TUDO triunfa sobre a não - realidade. Sob o Real, o TUDO, migrando para espaços soberanos, transporta, na velocidade da luz primordial, a fagulha excelsa do Criador, o gene remoto do NADA, que, presente na atemporalidade, se constitui no Princípio Gerador de Todas as Coisas - lei prima e balizada pela imutabilidade de sua função, ação e execução. Assim, entre o NADA que não desapareceu e o TUDO que não completou a sua expansão, há, de forma indelével, o grande vão da suprema inteligência. Neste vácuo fundamental, a verdade cifrada das sephirots, que suporta os seres, as coisas, os mundos, os universos, as entidades e o princípio gerador.
Na terminalidade da Criação, a inteligência humana, atingida pelas forças antagônicas, capta a luz vibracional, recebe os códigos mutáveis e imutáveis dos planos superiores e livres das leis temporais, mas é refém da natureza primordial, onde o triunfo do TUDO não garante a pulverização do NADA. No primeiro momento, e não partícipe do NADA ABSOLUTO, a existência humana era, com efeito, o sonho do Criador, sob a forma de desejo primaz e enigma inquestionável. No segundo momento, quando o NADA ABSOLUTO fora engolfado pelo TUDO, o ser humano tivera registrado, em seu código vital, o nada relativizado e latente, em sua espiral genética. A tensão vibratória da Árvore da Vida, que está contida nos processos que mantêm a criatura no plano rarefeito do Cosmo, da perfeição à imperfeição, revela, em última análise, o imponderável: a imagem e a semelhança do Criador na representação teológica e ontoteológica, cuja palavra de fundação sofreu a corrosão inevitável da desconstrução, do desfazimento e da própria nadificação, que nasceu sombria para jamais deixar de morrer. O NADA é; o TUDO não é.
O Homem, vaso luminoso que deveria ser, reverte sua polaridade essencial. O centro da criação descobriu em si a sua teofania; todavia aquele eliminou, em sua estrutura interior, os ramos intangíveis da árvore vital da qual aquele é parte indissociável. Assim, ao renegar-se como partícula divina, o Homem abandona o processo regenerativo da autoflexão, e prova, no limiar das paixões egoístas, o Abismo, com toda sua volúpia, ardente e voraz, cujo vórtice tende a eliminar a natureza sublime da Criação para dar lugar à voz concêntrica de um eco, marcado pela inflexão e pelo distanciamento de suas respectivas natureza física e metafísica.
Em processo agudo de degeneração, o Homem parece, portanto, navegar em outro espaço; talvez uterino, ou, quem sabe, final, pois, um dia, na curvatura do tempo, o recolhimento ou o retraimento da própria essência se fará necessário para que a ordem se restabeleça, de dentro para fora, e não de fora para dentro, como supõem observadores incautos e míopes da realidade circundante. Contra o abismo nadificante, um vórtice às avessas, cuja força renovará as veias elementais da Árvore da Vida - as sephirots -, e a densidade será leve, dessubstanciada, e, finalmente, etérea.


- ATO FINAL -

A Árvore da Vida carece de expansão. Novos ventos, novos sopros devem ser gerados nos pulmões do Criador, pois o NADA preencheu as vagas da consciência humana e o TUDO é apenas a aparência da realidade no crivo agudo da depressão.

  • A Lei: o TUDO deverá SER para que o NADA SEJA o próprio TUDO.